Niek Veerlan/Pixabay
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Sexo, paixão, amor e ciúme

Foi tudo sem querer. Nos apertaram no apertado 147 de Júlia. Todos bêbados

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 03h00

Paixão:

Colocou lençóis limpos e um vasinho com flores. Ela chegou, e logo se deitaram. Meu mocinho, amor... Nus, na posição. Massagem nas costas, carinhos, beijos no pescoço, na orelha, na testa, nos olhos, no nariz, na boca, nos ombros, em toda a barriguinha. Júlia, virgem como ele, era magra como ele, com as pernas esguias. Pareciam dois grilos na cama trançando braços e pernas. O desejo era enorme. Assim como as dificuldades. Pensavam que seria fácil. Fizeram tudo certinho. Nada. Doía. Não era para doer, era para ser lindo, do outro mundo, inédito, apaixonante. Não entrava. O que faltava? Relaxaram. Olharam o teto. Riram da situação. Massagem, beijos, lambidas, carinho, sobe novamente, ela encaixa as pernas nas costas dele, se acomoda, abraça, queria tanto quanto ele, vai, agora vai, vai! Dói! Posso? Dói. Não entra? Não entra. Mais uma vez. Para, para, para!

Ato:

Numa tarde em que estavam apenas os dois, foi com tudo, sem medo de vê-la sofrer, porque a culpa era dele e da sua sociedade patriarcal, de sacerdotes e ancestrais. Perdão, você vai sofrer, vai sangrar, tabu meu não querer machucá-la, vou machucar esta pele tão valorizada em culturas primitivas, como escreveu Freud, vou rasgar, desculpe, eu vou te salvar, nos salvar. Deus está morto! Nu, sobre ela, encaixado, forçou, não parou, forçou mais, tensionava, abriu mais sua perna, e empurrou com uma força descomunal, ela pulou, entrou, ela se contorceu de dor, abriu, sangrou, ele sabia que doía, ela o beijou, forçou novamente, ela se contorceu mais, abriu mais as pernas, ficaram com as bocas grudadas, estava tensa, apertada, e em cada forçada, um gemido de dor, um corpo enrijecido e nenhuma expressão de prazer, só de dor. Júlia dizia:

– Não pare. 

Sexo:

Não se lembra de ter insônia naquela casa, apesar da agitação. Dormia com tranquilidade, profundamente, sempre que se deitava. Nessa noite, Júlia já tinha se ido, e ele não sabia que horas eram. A porta se abriu. Iluminou. Uma penumbra nela. Achou que era o amigo que dividia o quarto com ele. Fechou os olhos. A porta se fechou. Um corpo se sentou de pernas abertas sobre ele. O vulto tomava forma. Tinha o cabelo comprido preto, uma boca enorme. Eloá estava sem calcinha. A amiga da namorada dele. Não sei como conseguiu, foi tudo tão rápido. Ela se esfregou nele, encaixou. Estava muito lubrificada. Entrou fácil. Como entrou fácil... Sem dor. Sem pudor. E lá dentro ele ficou, embrulhado, acariciado, tomado. O máximo que conseguiu foi colocar as mãos nas coxas dela. Ela fez tudo. Sem abrir a boca. Sem pedir ou explicar. Sem culpa. Sem dúvidas. E não recuou. Não recusou. Nem se beijaram.

Amor:

Júlia chegou, ele sentia culpa, e foi emocionante revê-la renovada. Rolou de novo aquela sensação boa subindo a espinha, se espalhando por toda a corrente sanguínea. Ela mexia com ele, ele mexia com ela? Ficavam eufóricos toda a vez que estavam numa cama. Em menos de um minuto, depois da olhada no olho, para se certificar como o outro estava, e confirmar que estava tudo bem, estavam nus se pegando. Logo, estavam grudados, colados, untados, encaixados, se amando da cabeça aos pés. As bocas não se desgrudavam, as línguas não paravam, o suor os colava mais, suas pernas agarradas nele o grudavam mais nela, ele dentro dela, e de lá não sairia tão cedo, sugado, os braços os prendiam num nó, num abraço difícil de desatar. Dessa vez, foi em silêncio, concentrados. Só foram se desgrudar quando anoiteceu. Ela disse:

– Hoje, vou dormir com você.

Ciúme:

Foi tudo sem querer. Nos apertaram no apertado 147 de Júlia. Estávamos todos bêbados. Viemos de uma festa. No banco de trás, quatro pessoas. Não cabia uma mosca, ele se lembra. 

Júlia dirigia. Ele no banco de passageiro. Sua melhor amiga, Eloá, entre eles. Mas era tão estreito que Júlia não conseguia passar a marcha. Ela sugeriu para a amiga Eloá se sentar no colo dele. Aos poucos, uma reação fenomenal se formou. A menina continuou encaixada. As curvas e o chacoalhar só pioraram. Teve que segurá-la, para não cair. Passou o braço direito em torno do seu quadril, e ela colocou a mão no seu antebraço. Apertavam no carro apertado. Estava todo mundo bêbado, já disse. Ela ficou superencaixada com seu colo. A mãozinha dela ficou alisando os pelinhos do seu antebraço. Ela era demais. Todos têm desejos secretos. Até achou que Júlia fizera de propósito, com o propósito de ela sentir o mais tarado dos caras de 18 anos que namorou. Parecia até que dirigia, fazia curvas e freava, para aquele quase coito chegasse a um ápice. Que não sei como juntou forças para não chegar. 

Ao chegar ao destino, ele abriu a porta, a amiga zarpou, e Júlia viu o resultado de suas manobras. Olhou furiosa. Deixou cada um na sua casa, até desabafar e jogar na cara, num ataque de ódio e ciúme que ele nunca tinha visto. Quando ele saiu do carro, ela só disse:

– Você é inacreditável...

Rompeu o namoro.

*É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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