Sexo na cabeça e nos debates

Com obras sobre o tema, Federico Andahazi é destaque na Mantiqueira

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2011 | 00h00

Entrevista - Federico Andahazi, escritor

O sexo sempre rondou a obra do escritor argentino Federico Andahazi - a começar pela sua estreia, em 1996, quando O Anatomista (L&PM) surpreendeu ao contar a fantástica biografia do descobridor do clitóris, Mateo Colombo. Ele voltou a deixar o público de queixo caído quando, em 2008, iniciou sua trilogia sobre a história sexual dos argentinos. Com tal bagagem, Andahazi é uma das atrações do 4º Festival da Mantiqueira, que vai de hoje a domingo, na cidade de São Francisco Xavier.

No evento, que contará ainda com o cantor Lobão (veja mais convidados no quadro), Andahazi faz sua palestra amanhã. Sobre o assunto, ele conversou com o Estado, por e-mail.

Como a história da sexualidade de um país pode ser reveladora?

Escrevi a História Sexual dos Argentinos e agora comando uma equipe de autores e historiadores da América Latina e Espanha para tratar da história da sexualidade Ibero-americana. Publicamos o primeiro volume no México, Colômbia e Chile e, em todos os casos, confirmamos a mesma hipótese: não se pode compreender a história de um país se não à luz de sua sexualidade. A recíproca é verdadeira: não se entende a forma que cada um exerce sua sexualidade se se desconhece a história política e social de uma nação. A colonização espanhola estabeleceu a política da mestiçagem, ou seja, a expansão do sangue e dos sobrenomes espanhóis mediante uma política de relações sexuais com os aborígenes. Com a independência, as oligarquias se consolidaram mediante pactos sexuais entre famílias e até intrafamiliares, próximas do incesto, a fim de que as terras permanecessem na menor quantidade de mãos possíveis. Entre o final do século 19 e início do 20, estabeleceu-se a imigração de europeus, com a intenção de "purificar" os "defeitos" da população. Esse processo foi paralelo ao massacre sistemático dos povos originais. Ou seja, sexo e história sempre caminham juntos, inclusive nos momentos mais sangrentos.

A sexualidade é sempre escandalosa?

Desde a época da colônia até o último escândalo protagonizado por Strauss Kahn, sempre o sexo mesclou esferas pública e privada. Esse escândalo, aliás, é uma metáfora eloquente: denuncia a disposição do FMI de submeter não apenas os países, mas também cada um de nós. Não é casual que a vítima do diretor do FMI tenha sido uma africana pobre, que vivia no Harlem. Os escândalos de Berlusconi na Itália, de Menem na Argentina, Clinton nos EUA ou de Lugo no Paraguai acentuam tal hipocrisia que se repete ao longo da história e geografias.

Figuras como Berlusconi, então, podem ser considerados representativos de um país?

Sim, claro. Apesar dos pontos em comum, cada caso tem sua particularidade. Berlusconi é a caricatura de um imperador da época decadente do Império Romano. O caso de Lugo é interessante. Quando os espanhóis chegaram onde hoje é a tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, surpreenderam-se ao descobrir que os guaranis tinham uma sociedade poligâmica. Atraídos pelas belas índias, mataram os chefes tribais para ficar com elas. Quando a notícia chegou à Espanha, os reis, escandalizados, enviam clérigos para reestabelecer a ordem. Mas, ao chegarem aqui, os padres montam seus haréns. E assim foi até chegarmos a Lugo: um padre que chega ao poder mas que tem um harém e filhos espalhados por todo o Paraguai.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.