Sexo, mentiras e celulóide

Na capa, três poderosas fêmeas da tela - Tallulah Bankhead, Marlene Dietrich e Greta Garbo - encimando um título (The Girls), que seria irremediavelmente insípido se desacompanhado deste provocante subtítulo: Sappho Goes to Hollywood. Sim, aparentemente, é mais um livro de grandes fofocas, recém-lançado nos EUA pela St. Martin Press, mas que além de cumprir o que anuncia (falar das atrizes que acendiam incenso no altar de Safo em Hollywood nos anos 30 e 40), mergulha o leitor numa inacreditável intriga internacional, com lances de chantagens, espionagem, dissimulações - e muito sexo, naturalmente. Garbo e Marlene são, e não apenas por seus quilates, as garotas com maior presença nas 440 páginas escritas pela jornalista Diana McLellan. O destaque dado a Tallulah deve-se à sua insaciável ninfomania ("ela buscava sexo de todo tipo, avidamente e sem reservas", informa Diana) e à sua alucinada paixão por Garbo. Uma das atrizes mais afetadas da ribalta e da tela, cuja aparição cinematográfica mais acessível ao público brasileiro é aquele tour de force de Hitchcock, Um Barco e Nove Destinos, que no próximo dia 20 o Telecine Classic volta a reprisar, Tallulah não virou folclore na Broadway e em Hollywood apenas por seus ademanes e pela maneira inconfundível como pronunciava certas palavras (seu darling, ou melhor, daaahling, saía sempre polissílabo de sua boca), mas também por não livrar a cara de nenhuma atriz que preenchesse alguma de suas fantasias sexuais. Colegas que habitualmente encarnavam garçonetes e empregadas domésticas a levavam à loucura. Seu caso com Patsy Kelly, que cansou de entrar em cena envergando um avental, só não causou mais espanto nos esconsos sáficos de Hollywood que suas transas com Hattie McDaniel, aquele breve contra a luxúria que entrou para a história como a primeira atriz negra a ganhar um Oscar, por sua performance em ...E o Vento Levou - fazendo o papel da criada de Scarlett O´Hara. Esfinge sueca - Tallulah se derretia por Garbo, mas foi a outra ninfa que a esfinge sueca se entregou. Eis a primeira novidade de The Girls: Marlene e Garbo não só se encontraram pessoalmente como compartilharam o mesmo fruto proibido. As duas sempre afirmaram que jamais estiveram juntas. Tudo mentira, tudo combinado. Na base da chantagem. Pesquisando durante cinco anos todas as cartas, memórias e diários em que pôde meter o bedelho, mais documentos, vários sigilosos, do governo americano, Diana, também municAiada por inconfidências de amigos e contemporâneos de suas girls, descobriu que Marlene seduziu Garbo durante as filmagens de Rua das Lágrimas, rodado em Berlim pelo alemão Georg W. Pabst em 1925. A então recatada e ingênua sueca de 19 anos não teria resistido aos encantos e à lábia da rechonchuda e então morena alemã, que aos 23 anos já era uma devoradora de homens e mulheres nos bastidores do show business berlinense. E, menos ainda, ao trauma do súbito descarte de que foi vítima, quando a volúvel Marlene teve outro coup de foudre. Para Diana, as raízes da neurótica reclusão de Garbo e o prematuro fim de sua carreira no cinema estão todas fincadas nesse affair mal resolvido. Segredos excitantes. Era assim que Garbo chamava os seus casos homossexuais, informa Diana na abertura do primeiro capítulo de seu livro. Sem rufar tambores. Afinal de contas, há tempos - desde, pelo menos, o início dos anos 70, quando Kenneth Anger abriu todos os armários da capital do cinema em Hollywood Babylon - que o bissexualismo da estrela de Ninotchka virou segredo de polichinelo. O poeta e escritor polonês Antoni Gronowicz ouviu dela confidências reveladoras e pôs tudo em Garbo - Uma Biografia Não Autorizada, escrita em 1976, trancafiada nos cofres da editora nova-iorquina Simon & Schuster até a morte da atriz, em 1990, e traduzida entre nós, um ano depois, pela Rocco. Foi Gronowicz, amigo e confidente de Garbo durante 20 anos, quem deu publicidade ao affair dela com a poeta, teatróloga e roteirista Mercedes de Acosta. Dominatrix miúda, inteligente e muito elegante, com ela, Garbo descobriu até o vegetarianismo. Conheceram-se em 1934, pouco depois da morte da comediante Marie Dressler. Apesar de medonha, gorda e já idosa quando conheceu Garbo nos estúdios da Metro, Marie não teve dificuldades para atrair a bela sueca para o seu redil. Idéia fixa - Diana dá mais detalhes sobre a movimentação de Mercedes nas sendas teatrais e cinematográficas. Passou pelos braços da atriz russa Alla Nazimova (que também foi amante da dançarina Natacha Rambova e da líder anarquista Emma Goldman) antes de mandar-se para Hollywood em 1931, com uma idéia fixa na cabeça: conquistar Garbo. Depois de Garbo, foi a vez de Marlene. Sewing Circle. Era com este eufemismo (literalmente, círculo social que se reúne para costurar roupas com fins caritativos e sinônimo de mutirão) que Marlene e suas amigas denominavam as participantes das tertúlias femininas comandadas pela atriz alemã, onde tudo podia acontecer depois do almoço e do tricô verbal que o precedia. Tudo, inclusive nada do que você está pensando. As reuniões se davam sob os mais glamourosos tetos de Hollywood e muitas vezes eram recepcionadas por sólidos casais heterossexuais, como, por exemplo, Dolores Del Rio e o chefe do Departamento de Arte da Metro, Cedric Gibbon. Kenneth Anger já registrara a existência desse círculo, assim como a abrasadora relação de Marlene com Claudette Colbert e Lili Damita. The Girls vai bem mais fundo e longe na história dessa côtérie, instituída no mesmo período (início dos anos 30) em que Marlene passou a usar roupas masculinas, na tela e ao ar livre. Garbo não pertencia ao círculo. Havia um pacto de não aproximação entre as duas. Quando a atriz e roteirista Salka Viertel, mulher do cineasta austríaco Berthold Viertel, convidava Garbo para as festas que volta e meia oferecia aos europeus exilados em Hollywood, Marlene não comparecia. Esse arreglo foi urdido quando Marlene chegou a Hollywood. Chantagem preventiva - Temendo que ela fosse abrir o bico sobre o que se passara nas filmagens de Rua das Lágrimas, Garbo socorreu-se ao savoir faire de Salka, que se tornara sua protetora e amante. Além saber fazer as coisas, Salka sabia de coisas que poderiam encalacrar a vida da recém-chegada descoberta de Josef von Sternberg. Foi ela quem urdiu toda a chantagem preventiva, objetivando silenciar Marlene e mantê-la afastada para todo sempre de Garbo, pois tampouco queria correr o risco de uma recaída de sua protegida. Para evitar surpresas, cuidou de aproximar Marlene de Mercedes de Acosta, e ambas lhe ficaram agradecidas. Conseguir o silêncio de Marlene foi ainda menos complicado. Salka e Berthold eram íntimos de Marlene desde o começo dos anos 20. Faziam parte do mesmo círculo teatral berlinense dominado pelos comunistas. Só eles sabiam da existência de um enigmático sujeito chamado Otto Katz na vida da atriz. Oficialmente ela era casada com Rudi Sieber, Katz era seu "marido secreto" - e, possivelmente, o verdadeiro pai de sua filha Maria. Diana estranha que nenhum biógrafo da atriz tenha seguido as pegadas desse personagem, espião russo, a serviço do Comintern, com várias identidades e múltiplos endereços. Apoiado por Stalin, Katz desembarcou nos EUA em março de 1935, munido de um pseudônimo (Rudolph Breda) e com a missão de criar e controlar a Liga Antinazista Americana. Se descobrissem suas ligações com Marlene, a carreira da atriz ficaria seriamente ameaçada. Chantageá-la não foi, portanto, tarefa das mais difíceis. A atriz chegou a persuadir os produtores de Rua das Lágrimas a cortar várias cenas em que ela aparecia, inclusive uma em que Garbo desmaia em seus braços. Diana conseguiu uma rara cópia do filme, com todas as cenas originais, nos arquivos da Biblioteca do Congresso, em Washington. Intimidade - Encontrei vestígios da passagem de Katz pela América no cartapácio de Eric Bentley sobre os processos macarthistas, 30 Years of Treason, no qual o agente também aparece identificado como André Simone. Bentley não faz qualquer referência a Marlene, é claro, pois o silêncio em torno da intimidade entre a atriz e Katz (que Diana diz ter inspirado o personagem de Victor Laszlo em Casablanca) jamais foi quebrado. Nem sequer pelo FBI, cujo chefão, Edgar Hoover, também fez um acordo com a atriz, que, em troca, muito se esfalfou pelo sucesso da causa aliada. Diana jura que não escreveu The Girls para épater e difamar defuntos. "Meu objetivo não era entregar minhas garotas - a quem aprendi a estimar -, mas entender suas cabeças, suas vidas, e o tempo e o contexto social, sexual, teatral, político e cinematográfico em que viveram. Fiz menos um livro sobre o lesbianismo de algumas estrelas do que sobre o muro de mentira por elas erguido para se proteger até mesmo do moralismo então vigente em Hollywood. Ver este muro desabar foi uma aventura tão excitante para mim quanto a abertura da tumba de um faraó."

Agencia Estado,

13 de janeiro de 2001 | 19h39

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