Sexo, João Gilberto e rock and roll

Um festival hippie no interior teve até bossa nova nos anos 80. Tão incrível que vai virar documentário

Fabiana Caso, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

 

 

Bonzinho. João Gilberto canta em 83 na poeira de Águas Claras

 

 

 A DJ Sonia Abreu ainda se lembra do impacto do vendaval que arremessou sua mesa de som do palco ao chão na segunda edição do Festival de Águas Claras, em 1981. O saxofonista Manito recorda que a eletricidade da fazenda acabou durante o show do Som Nosso de Cada Dia, em 1975. Jards Macalé não se esquece da chuva e do violão molhado em 1983. Mas todos eles concordam com Jorge Mautner: o evento foi uma maravilha e ficou marcado como uma celebração.    

 

 

 

 

Veja videoTrecho do documentário sobre Festival de Águas Claras   

 

 

 

 

 

Nem a falta de estrutura imaginável em uma fazenda do interior nem as intempéries que brincaram com o nome Águas Claras abalaram a viagem sonora. Em quatro edições (1975, 1981, 1983 e 1984), o festival atraiu 235 mil hippies tardios, motociclistas, casais com filhos e mais um sem-número de tribos de brasileiros e outros sul-americanos. Eles lotaram as estradas para chegar à fazenda de Águas Claras, no minúsculo município de Iacanga, a mais de 400 km da capital.

O rock progressivo sobressaiu no primeiro evento, em 1975, mas, nas edições seguintes, o elenco era eclético. Revezavam-se o rock de Raul Seixas, o virtuosismo de Arthur Moreira Lima, o experimentalismo de Hermeto Pascoal, os agudos de Tetê Espíndola, os gritinhos da Jovem Guarda de Erasmo e Wanderléa, as canções de Gilberto Gil e a improvável bossa de João Gilberto.

Duas pessoas estão hoje empenhadas em levar essa história às telas. A primeira é o documentarista Thiago Mattar, de 22 anos, que há três filma entrevistas com organizadores, público e artistas que participaram do festival. A intenção é mesclar imagens de arquivo coloridas com os novos depoimentos em preto e branco, em um documentário sem narração. E como alguém tão jovem se interessou pelo assunto? "Meu pai esteve lá e me contou histórias incríveis. Fui pesquisar e havia só um blog sobre o assunto."

Trabalhando de forma independente com sua equipe, e captando recursos para a finalização, a previsão de lançamento é para 2013. Enquanto isso, Thiago comanda uma operação para reunir testemunhos e imagens de quem esteve lá por meio do e-mail tival@hotmail.com.

Já o cinegrafista Adauto Nascimento, de 50 anos, está em busca de recursos para finalizar a digitalização das imagens que registrou em 16 mm no Festival de Águas Claras de 1981 (veja trecho exclusivo em nosso site). À época, ele morava em Bauru. "Vi todos aqueles hippies chegando na cidade e os filmei." Tirou uma folga do trabalho e lá foi armado com sua câmera. E se emocionou vendo as pessoas caminharem 50 km entre Bauru e Iacanga (não havia ônibus para todos), tomando banho em bicas e incendiando bandeiras americanas.

Hermeto Pascoal subiu ao palco no meio da madrugada e cumpriu a promessa de tocar até o sol raiar. "Era uma fase de transição na ditadura, as pessoas se sentiam muito vivas", conta Adauto. "No final, havia tanta gente que o prefeito da cidade colocou à disposição uns caminhões de gado que ia despachando o público nas cidades vizinhas." Os trens foram invadidos e, por fim, liberados para facilitar a volta.

Jorge Mautner é o artista recordista em apresentações: tocou nas quatro edições de Águas Claras. "Havia uma interação muito grande, um senso de comunidade e um clima de carnaval", empolga-se. Para Jards Macalé, que se apresentou em 1983, o festival foi um "Woodstock caboclo". Apesar de contratempos como "uma diarreia coletiva causada por uma certa cerveja que estava sendo lançada sem estar bem temperada", ele se lembra com carinho das palavras de ordem: paz e amor. "Foi uma aventura para todos."

O organizador Antonio Checchin Junior, filho do dono da fazenda de Águas Claras e mais conhecido como Leivinha, custou a conseguir a autorização para o primeiro festival, em 1975. Durante um mês, ele ia diariamente à Secretaria de Segurança. O evento só foi liberado depois de ele assinar um termo se responsabilizando pelos atos subversivos que viessem a acontecer.

Na base da divulgação boca a boca, e com panfletos, ele não pensou que chegariam 25 mil pessoas na primeira edição. Os estoques da pequena Iacanga sucumbiram já no segundo dia. Não havia mais comida ou bebida. "Distribuíamos frutas da fazenda", conta. Demorou seis anos para ele conseguir autorização para uma outra edição. Na década de 1980, os festivais foram mais bem estruturados e contaram com atrações como circo, balonismo e motocross. "Foi uma grande quermesse", diz o hoje advogado e dono de resort, de 58 anos.

A pesquisadora de mercado Silene de Cássia Bastoge, de 45 anos, esteve nas edições de 1981, 83 e 84. Da primeira vez, adolescente e fã de rock, nem ligou para a proibição de seu pai. Pulou a janela de casa e pegou uma carona rumo a Iacanga. Nem barraca levou: dormiu ao ar livre com uma amiga. Já em 1983, não pagou ingresso. "Foi uma aventura. De madrugada, andamos pela fazenda inteira e entramos pelo cafezal, ouvindo as patas dos cavalos da polícia."

A cantora, compositora e musa da comunidade GLS gaúcha Laura Finocchiaro também assistiu ao festival de 1983. "Foi um barato. Ficávamos tocando violão e fazendo performances", conta. "Tive um affair com um menino: havia aquele sentimento de acreditar no amor livre."

Já o pesquisador paulistano Fabio Salgado, de 44 anos, trabalhava na tenda do Grupo Corpo ? que dava aulas de ioga, tai chi chuan e fazia massagens durante a edição de 1983. Além do frio e da chuva, ele se recorda dos jovens procurando cogumelos como em uma procissão. E da surpresa ao ver o artista mais esperado vaiado: Raul Seixas não estava em sua melhor forma em 83 e não conseguia cantar as próprias músicas. Por outro lado, João Gilberto foi o campeão de aplausos. "Eu me surpreendi com todos aqueles roqueiros cantando O Pato. O João não estava de terno, fez um show descontraído. Era para ser uma imitação de Woodstock, mas o Brasil apareceu ali."

Além dele, muitos consideram a apresentação de João Gilberto apoteótica. Depois de passar mais de 20 anos no exterior, é incrível que ele tenha topado tocar em uma fazenda no interior de São Paulo ? sem reclamar da falta de estrutura, do som, de nada. Pelo contrário. Durante o show, sorrindo, ele dedilha o violão enquanto escuta o público entoar Wave, sob a moldura do amanhecer em Águas Claras. E até bateu palmas para a plateia no final. Parece inacreditável.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.