Sexo

Resultado de pesquisa acadêmica, obra do psicólogo norte-americano Jesse Bering chega agora ao Brasil

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2013 | 02h08

A pesquisa acadêmica do psicólogo norte-americano Jesse Bering, 37, gira em torno da ciência cognitiva da religião, mas seu interesse mesmo é sexo. Até onde pode se lembrar, conta Bering, por telefone, de Nova York, ele sempre foi curioso sobre assuntos "impróprios", entre os quais a razão de o pênis ter a forma que tem. Por que a glande mais parece uma calota de cogumelo ou um guarda-chuva aberto, de acordo com o caso? Se o leitor quiser saber a resposta, ela está no livro Devassos por Natureza, lançado em julho do ano passado nos EUA e agora publicado no Brasil pela Zahar. Bering lembra apenas que chimpanzés, gorilas e orangotangos, nossos primos, têm um design fálico menos extravagante - e alguns centímetros a menos que os humanos.

Para quem é curioso e não suporta esperar, a forma de calota serve como uma pá para retirar o esperma de outros invasores que tiveram sexo com a parceira até 48 horas antes (as células do esperma sobrevivem no muco cervical de uma mulher por dias). Claro que a resposta é mais longa, mas, para um psicólogo evolucionário, a pergunta "para que isso serve" aparece sempre em primeiro lugar. Bering não concluiu que o pênis humano é grande comparado ao dos outros primatas (bem, nem todos, é claro) por simples curiosidade, mas para começar uma longa pesquisa que já rendeu centenas de artigos em revistas científicas sérias como Scientific American e jornais respeitados como The Guardian.

Bering, que em 2011 provocou conservadores com seu livro The Belief Instinct, em que afirma ser Deus uma ilusão, prepara-se para nova polêmica em outubro, quando chega às livrarias seu novo livro, Perv (The Sexual Deviant in All of Us). O "perv" é mesmo de pervertido e a capa do volume não engana ninguém: traz uma inocente ovelhinha que bem parece a companheira de Gene Wilder no filme de Woody Allen, Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo.

Devassos por Natureza fala desses desvios, mas seu foco é o comportamento humano segundo a perspectiva de um cientista, psicólogo, gay e ateu "com uma queda para teorias evolucionárias". Evidentemente, trata-se de um livro mais cultural e menos interessado em conquistar admiradores na comunidade científica. Um dos seus capítulos mais interessantes (o terceiro) trata de pessoas que sofreram danos cerebrais e se tornaram muito, mas muito despudoradas. Desde os anos 1950 sabe-se que um paciente com a síndrome de Klüver-Bucy pode desenvolver um apetite sexual que o torna socialmente indesejável. E não só adultos. Em 1998, dois neurologistas analisaram um grupo de meninos que começou a exibir um comportamento hipersexualizado. Estaríamos diante de uma mutação antropológica?

É cedo para dizer isso. Bering insiste, no entanto, que devemos nos livrar dos preconceitos morais e tentar entender a exceção. É por isso que seu livro estuda casos de pedofilia, canibalismo e zoofilia. Antes de mais nada, diz Bering, ele tenta ser um bom cientista, quer esteja examinando o caso de erotômanos sonâmbulos ou de um bebê de 16 meses cujos pelos pubianos deixaram os pais assustados até que a causa foi descoberta: o pai espalhava um gel de testosterona duas vezes por dia sobre o corpo e tinha o costume de dormir abraçado ao bebê (cujos pelos desapareceram depois que o pai abandonou o tratamento contra a libido baixa provocada por depressão).

As amostras das esquisitices humanas não constituem exatamente um gabinete de curiosidades em Devassos por Natureza. Se o foco sobre a anatomia reprodutiva masculina parece um tanto excessivo em Bering, isso se deve à formação cultural de um gay - e seu estudo, de resto, não evita tocar no tema delicado do alarmante suicídio de adolescentes homossexuais nos últimos anos (capítulo sete do livro), a despeito da liberalização dos costumes. "Não é mais possível estudar a sexualidade humana comparando-a à do reino animal, como antigamente", diz o cientista. Ele se refere a estudos pioneiros como o de André Gide (Corydon), que, na desesperada tentativa de provar que a prática homossexual é comum aos humanos e irracionais (golfinhos, por exemplo), acabou confundindo mais que explicando.

Acima de tudo, o comportamento humano, segundo Bering, ainda é balizado pela ideia - o cientista prefere a palavra "ilusão" - de um Deus que monitora nossa conduta moral. Numa perspectiva evolucionista, esse ser sobrenatural seria substituído por câmeras escondidas e análises do DNA, criados pelo homem. "A tecnologia tornou obsoleto o papel regulador desse ser supremo", diz Bering, ateu assumido. "O caso é que nosso cérebro não evolui tão rapidamente como a tecnologia, o que nos faz vítimas das mesmas ilusões cognitivas que nos levaram a acreditar no sobrenatural".

Pode-se discordar de Bering, assim como do zoólogo evolucionista Richard Dawkins a respeito de Deus, mas é impossível não reconhecer que o homem tem estilo e escreve infinitamente melhor que a maior parte dos cientistas que tratam do assunto. Ele não provoca apenas. Tenta dar respostas diretas aos leitores, que trata como íntimos interlocutores, ou seja, com humor e inteligência.

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