Lu Barcelos/Divulgação
Lu Barcelos/Divulgação

Seu corpo coladinho ao meu

Com Tão Próximo, Quasar mantém identidade, mas busca outros passos

Maria Eugênia de Menezes GOIÂNIA, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2010 | 00h00

Quando trouxe a público Por Instantes de Felicidade, em 2007, a Quasar aproveitava o aniversário de 20 anos para se revisitar. Com a coreografia, recuperava certa inocência, e também deixava entrever, aqui e ali, reminiscências de muitos dos espetáculos que projetaram o grupo de Goiânia a partir dos anos 1990. Na nova Tão Próximo, que chega neste fim de semana a São Paulo, Henrique Rodovalho faz diferente. Livra-se de qualquer laivo de nostalgia, trata pouco do passado e parece entregar-se, mais uma vez, ao propósito de reinventar a companhia.

A própria escolha da trilha sonora já entrega um pouco a chave para entender os novos passos. As composições do alemão Hendrik Lorenzen privilegiam batidas eletrônicas, uma sonoridade bem mais áspera do que aquela que costumamos ver nas criações da Quasar. Entusiasta das canções - que podem ser de Tom Jobim ou de Madeleine Peyroux -, Rodovalho diz agora estar em busca de uma dança que tenha existência quase independente da música. "Não é uma trilha para se ouvir em casa. Ela serve para aquele momento. Mas os movimentos, não. É uma coreografia que pode existir mesmo no silêncio."

Plano-sequência. Em muitas passagens de Tão Próximo a trilha sonora é interrompida. No palco, contudo, os bailarinos parecem não dar por conta disso. Continuam a dançar. Movem-se em um desenho incessante. Sem pausas ou interrupções. "Lembra um pouco um filme gravado em plano-sequência. Um movimento vai levando ao outro, sem quebras", pontua o diretor. De fato, o que se vê no palco são gestos que parecem começar num corpo e reverberar no outro. Uma história sem começo, meio ou fim. Como se estivéssemos diante de um moto-contínuo.

Todo em tons pastel, a confundir-se com a própria pele, o figurino de Cássio Brasil serve para sublinhar o propósito da obra, o de confundir os corpos. Mas é também outro dos indícios da atual fase da Quasar. Devotada a minúcias, a companhia abriu mão, desta vez, dos recursos multimídia que contaminaram seus trabalhos anteriores.

Não é a primeira vez que o grupo dá uma guinada em seu estilo. Quando estreou Divíduo, um dos hits de seu repertório, em 1998, muitas foram as vozes a alardear a criação de uma linguagem própria. Distanciada dos traços de circo e teatro que permeavam seus primeiros espetáculos.

Em Tão Próximo, Rodovalho dispensa o cenário, a ligação estreita com a música brasileira, e, sobretudo, preocupa-se menos com o apuro da técnica.

Nesse cenário, o que resta da Quasar? Tudo, parece responder o coreógrafo, quando lembra que foi justamente a conquista de uma identidade particular que o libertou. "A questão da técnica já está tão bem resolvida, que isso nos deixa livres para buscar novas fronteiras."

QUASAR CIA. DE DANÇA

Teatro Alfa. Rua Bento

Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Sáb., 21h; dom., 18h. R$ 40/ R$ 60.

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