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Seu cargo à disposição

Humanos abraçam-se aos postos temporários imaginando-se eternos na cadeira, funcionários estáveis, como um rei no troninho, ainda que reis também levem tombos

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 03h00

De forma cruel e impiedosa um antigo chefe, de boa memória, deu um exemplo para todos os seus subordinados quando disse a seu superior, em um desentendimento de rotina, que colocava o cargo à disposição. No que ouviu do mandachuva a bordoada: seu cargo sempre esteve à minha disposição. Poderia ter dormido sem essa. Depois todos rimos, inclusive ele, mas o caos estava instalado. O rapaz, a contragosto, pegou o chapéu e se mandou. 

Nesta onda de humanos planaltinos colocando o cargo à disposição a torto e a direito é sempre bom lembrar essa história por exemplar. 

Humanos abraçam-se aos postos temporários imaginando-se eternos na cadeira, funcionários estáveis, como um rei no troninho, ainda que reis também levem tombos, muitas vezes de deixar marcas inesquecíveis. Como no caso do rei emérito Juan Carlos, da Espanha. Vê hoje o sol nascer em Abu Dabi, nos Emirados Árabes, refugiado das dívidas com o fisco espanhol. Talvez nem doa tanto, é um homem do mundo, nascido romano e tendo morado em Madri. Por aqui presidentes, governadores e prefeitos também são demitidos e finalizar um mandato se tornou praticamente uma gincana nos últimos anos. 

Cinema e literatura são pródigos em abordar o tema da demissão. A começar pelas crianças, na clássica animação da Disney, A Nova Onda do Imperador, nas vozes de Selton Mello e Marieta Severo, como o imperador peruano Kuzco e a conselheira real Yzma, quando é defenestrada. 

“Você foi exonerada do cargo, seu departamento deu uma reduzida, você não é mais operacional, pelo nosso ângulo você não é mais uma opção, pode escolher, tá?” (youtu.be/mk-5Kl_ngh0). Mas também pode ser pior, como no clássico de gente grande Um Dia de Fúria, com Michael Douglas, que sai às ruas um tanto descontrolado após perder o emprego, e Robert Duvall, policial à beira da aposentadoria, em seu último dia de trabalho, e terá de encarar essa jiboia endoidecida (youtu.be/QSUEqt1fsfk).

A demissão mais famosa da história deve ter sido a de Steve Jobs, criador da Apple, que numa tacada perdeu a presidência da empresa e a liderança sobre um novo Mac a ser lançado. Tinha 30 anos. Recomeçou, criou a NeXt, depois comprada pela Apple, e a Pixar, que recolocou as animações no devido lugar. Deu no que deu mas a história ficou no papel, no livro de Walter Isaacson (amzn.to/3dpX3o4).

Ah, sim, o amor. Também é um tipo de demissão o cartão vermelho dado por uma das partes de um relacionamento à outra. E estas, como as trabalhistas, podem ser por justa causa ou por motivos fúteis. Todo fim é amargo, ainda que façamos a escolha.  

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS

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