Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Setor cultural diz que é necessário entender que economia da cultura é lucrativa

Produtoras muitas vezes dependem de investimentos estatais, mas estudos mostram que impacto econômico frequentemente é vantajoso; Petrobras estuda cortar patrocínios

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

08 Fevereiro 2019 | 13h23

É preciso entender e informar que o investimento em cultura é lucrativo: essa foi a principal reação do setor cultural à notícia de que a Petrobras estuda romper contratos firmados nos governos anteriores, principalmente com grandes grupos de teatro e cinema e com a imprensa profissional. A decisão final da empresa deve ser anunciada no próximo dia 12, quando ocorrerá nova reunião para decidir a dimensão das mudanças.

Via Twitter, o presidente Jair Bolsonaro disse que os incentivos em cultura não devem estar a cargo da petrolífera estatal. “Determinei a reavaliação dos contratos. O Estado tem maiores prioridades”, escreveu na rede social.

Para o sócio-diretor da consultoria JLeiva Cultura & Esporte, João Leiva, interromper os patrocínios seria "um erro histórico".

"Além do impacto positivo na produção e desenvolvimento do setor cultural, a empresa tem um excelente recall como patrocinador de cultura no Brasil", explica o consultor. Na Pesquisa JLeiva Cultura nas Capitais, de 2018, a empresa aparece em 3º lugar no ranking das marcas mais lembradas pela população no apoio à cultura. 

"É a única de fora do setor financeiro no top 5. E é a mais lembrada na cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, o investimento não é feito a 'fundo perdido' (sem expectativa de retorno), pois é importante para o setor e eficiente para a construção da imagem da empresa", diz Leiva.

O consultor lembra que é comum entre empresas petrolíferas o apoio à cultura. "Os patrocínios da Petrobras (mencionados na reportagem) são de projetos de longo prazo, de grande impacto e relevância em diferentes áreas da cultura. São iniciativas extremamente reconhecidas, que contaram com a Petrobras em sua consolidação e, hoje, projetam uma imagem de excelência do Brasil e da empresa no exterior."

O diretor presidente da Associação Casa Azul, responsável pela produção da Festa Literária Internacional de Paraty, Mauro Munhoz, afirma que é necessário “entender que o investimento correto e estratégico em cultura tem impacto imediato na economia”.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pelo Ministério da Cultura em 2018, mostrou que a 16.ª edição da Festa gerou um retorno econômico de R$ 47 milhões, além de R$ 4,7 milhões em impostos. O investimento público no mesmo evento, diretamente ou via Lei Rouanet, foi de apenas R$ 3 milhões, segundo o mesmo estudo. A Flip também foi responsável pela criação de 1,3 mil empregos, de forma direta ou indireta.

Munhoz classificou a possibilidade de que a Petrobras, parceira da Flip ao longo dos anos, interromperia os patrocínios como “muito ruim”. “Evidente que o mundo da cultura tem uma série de prerrogativas, como conservar o patrimônio imaterial, construir identidades e a imagem do Brasil lá fora, etc. Mas se levar em conta só a questão tributária, a economia da cultura já é supervitária.”

A Flip participa do edital lançado no fim de 2018 pela petrolífera, que pretende apoiar com até R$ 10 milhões festivais culturais pelo País.

O escritor Joca Reiners Terron foi contemplado duas vezes pelo Petrobras Cultural de Criação Literária, em 2007 e 2012, e acredita que “dificilmente” teria escrito seus livros sem esse apoio. “Assim como dezenas de outros escritores que receberam o mesmo apoio também não teriam tido uma pausa em suas respectivas obrigações profissionais ligadas à sobrevivência econômica para escrever.”

Na quarta-feira, 6, alguns dos principais grupos patrocinados pela Petrobras, como A Companhia de Dança Deborah Colker, o grupo teatral Galpão, a Orquestra Petrobrás Sinfônica e o Grupo Corpo, disseram esperar não sofrer mudanças no patrocínio imediatamente, porque há contratos firmados até 2020.

O diretor executivo de Cia. Deborah Colker, João Elias, acredita que um dos motivos das mudanças programadas é resquício do período eleitoral. “Ainda não se desarmou o espírito de briga que polarizou a campanha do ano passado.”

Outro evento patrocinado pela empresa é o festival de cinema de animação Anima Mundi. Estudo da FGV encomendado pelo Ministério da Cultura em 2018 mostrou que, com um investimento de R$ 3 milhões, o Anima Mundi gerou impacto econômico total de R$ 26,9 milhões na economia do País.

A reportagem buscou outras produtoras culturais para comentar a possibilidade de que os patrocínios e incentivos da culturais sejam interrompidos. Algumas empresas preferiram não se manifestar, como a Time For Fun (produtora do Lollapalooza Brasil e de vários outros grandes shows e espetáculos ao longo do ano) e o Itaú Cultural (que nunca recebeu incentivos da Petrobras e já não utiliza a Lei Rouanet). A direção do Anima Mundi, festival de cinema de animação patrocinado pela petrolífera, não foi localizada.

FGV mede impacto dos patrocínios culturais

A Fundação Getulio Vargas apresentou no fim de 2018, no evento Mercado das Indústrias Criativas do Brasil (MicBR), o método utilizado para mensurar o impacto econômico de eventos culturais. Entre as variáveis analisadas pela Fundação, estão tributos gerados pelo investimento público, geração do empregos, potencial de expansão, número de turistas atraídos pelos eventos, e outras. O estudo mostrou que para cada real investido em eventos culturais selecionados pelo MinC (como a Flip, Anima Mundi, Carnaval, Game XP e outros) houve um retorno de R$ 13.

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