O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2012 | 03h08

Lopes

& Samba

DIA 26/5

CLAUDIA ASSEF

ELETRÔNICA

DIA 2/6

PATRÍCIA PALUMBO MPB

DIA 9/6

ROBERTO MUGGIATI

JAZZ

DIA 16/6

GILBERTO MENDES ERUDITA

Neste ano, já quase no meio, boa parte dos mais afamados criadores da canção brasileira completa 70 anos de idade. Nascido também em 1942, o autor destas linhas não poderia deixar de refletir sobre essa circunstância e sobre como o samba (instituição social, item da economia da cultura e gênero de música popular) é posto dentro dela.

O fato é que todos os importantes artistas setentões deste ano iniciaram carreira profissional, ou se tornaram publicamente conhecidos, na década de 60, num tempo em que o samba ainda detinha a hegemonia conquistada nos anos 30 e consolidada ao longo das décadas seguintes - período habitualmente referido como "Era de Ouro" de nossa música popular.

Com ouvido e sensibilidade treinados pelo rádio, numa época em que a música internacional - em geral desfrutada por um público específico - ocupava apenas, naturalmente, nichos da programação, esses hoje septuagenários tiveram sua primeira juventude embalada basicamente pelo samba. Tanto assim que todos eles, sem exceção, iniciaram suas carreiras ou despontaram, compondo e cantando dentro dos diversos estilos e padrões do gênero-mãe, incluindo-se aí a bossa nova. E isto se comprova em fundamentais obras de referência, como o livro A Canção no Tempo, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo (Editora 34, 1998).

Nos anos de 1960 - depois de Jango e do golpe militar; e no bojo do surgimento dos Beatles e da "jovem guarda", dos festivais e do tropicalismo -, chegava ao Brasil a música pop, forma concebida para o consumo de grandes massas em todo o mundo; e que, para atingir esse alvo tinha e tem sua atuação assentada em três axiomas básicos: o da modernidade ("o que não é pop é velho e ultrapassado"); o da abastança ("os artistas pop são ricos e seu público, potencialmente, também o é"); e o da beleza ("o que não é pop é feio").

Foi nesse fértil campo de cultura que se alastrou o preconceito contra o samba, que na verdade, segundo nossa interpretação, nada mais é do que a expressão de um triste complexo de inferioridade, de raízes bem profundas, que é a vergonha de ser brasileiro.

Observemos que, em maio de 1966, o número 7 da Revista Civilização Brasileira, uma das trincheiras intelectuais da resistência à ditadura, estampava um artigo do crítico Flávio Eduardo de Macedo Soares, intitulado A Nova Geração do Samba. Escrito numa época em que ainda não se tinha inventado a mercadológica, preconceituosa e divisionista sigla MPB, nele, o termo "samba", usado como sinônimo de "música popular urbana difundida pela indústria do entretenimento", não tinha nenhuma conotação depreciativa ou inferiorizante. Tanto que o texto focalizava, principalmente, alguns dos estelares setentões de agora.

Passado o tempo, os anos 80 confirmaram a entrada no Brasil no mundo da globalização, fenômeno que se traduz na expansão sem limites das grandes corporações na economia mundial, mormente nas nações subdesenvolvidas ou em desenvolvimento. No curso desse processo, os apreciadores mais argutos perceberam a mutação: a maioria dos septuagenários homenageados neste texto foi aos poucos preferindo a linguagem internacionalizada ao fraseado do samba.

A debandada deixou marcas profundas. E a maior delas talvez tenha sido a surpreendente guinada de um grande criador, um pouco mais jovem, que iniciara carreira em 75, com sambas modernamente sincopados, gingados e contagiantes, aparecendo assim como um importante modernizador do samba e que, na década seguinte, mudava de rumo: nosso querido Djavan.

Então, a perda de identidade veio efetivamente se consolidando, certamente orientada de fora, até chegarmos ao momento em que músicos egressos do ambiente da "jovem guarda" começaram a definir os rumos da indústria fonográfica no Brasil. Sobre o assunto, em junho de 2001, o jornalista João Ximenes Braga publicava em O Globo contundente matéria: Reis do iê-iê-iê Dominam as Gravadoras (disponível em www.cliquemusic.com.br). Através dela, ficou-se sabendo que, da turma do iê-iê-iê, saíram não só Roberto Carlos como uma boa parte dos executivos de gravadoras que, desde pelo menos os anos 80, literalmente traçaram os caminhos da indústria musical no País. Esses artistas funcionários se tornaram, passada a voga do iê-iê-iê, produtores e compositores do lado mais comercial da música brasileira nas últimas décadas, do "pop-sertanejo" (o gênero que mais acolheu os órfãos da "jovem guarda"), ao "neopagode" e ao "forró" safadinho.

Como é notório, hoje, a música brasileira de mercado não tem nenhum outro objetivo a não ser o lucro. E aí, enquanto abarrota as prateleiras com uma infinidade de produtos de vários segmentos, do universo do samba a indústria só entrega ao consumo e aos holofotes da grande mídia um, ou no máximo dois, de cada vez. E o que ela expõe tem que deixar de ser naturalmente popular para sê-lo do jeito que o conceito é formulado pela turma "do marketing e do financeiro", com bem acentuou Luiz Fernando Vianna, na biografia de Zeca Pagodinho (Rio, Relume Dumará, 2003).

Diante ou dentro disso, a maioria dos ilustres setentões de 2012, olha o samba a distância ou eventualmente lembra. Como um tesouro da juventude. Ou a imagem de uma primeira namorada.

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