Sete ondas de Caio

O cultuado autor de 'Morangos Mofados' é tema de documentário transgressor, como sua obra

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h16

Para o espectador que não teve oportunidade de acompanhar a ótima seleção do 18.º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, o encerramento do evento reserva hoje, no Cine Livraria Cultura, a chance rara de assistir aos dois vencedores das competições nacional e internacional. Mas a seção O Estado das Coisas, que exibiu títulos como Os Capitães, de William Shatner - sobre os atores que, como o diretor, ocuparam o cargo de comandante da nave Enterprise na cultuada série Star Trek/Jornada nas Estrelas -, reserva ainda hoje um momento especial. É o documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, de Bruno Polidoro e Cacá Nazário.

Os filmes dessa dupla possuem títulos poéticos e, mais que isso, intrigantes. Pela Passagem de Uma Grande Dor, O Vazio Além da Janela. Há outra grande dor agora e o vazio é ocupado pela obra de um autor que foi cultuado ainda em vida e cujo mito não para de crescer, Caio Fernando Abreu. Completaram-se em fevereiro, no dia 25, 17 anos da morte do gaúcho autor de Morangos Mofados e Onde Andará Dulce Veiga? Seu primeiro romance, Limite Branco, de 1970, definiu o que viriam a ser marcas autorais - a angústia diante do futuro e a morte como certeza no fim da jornada. Escrevendo sempre até sua morte prematura, Caio virou um dos expoentes de sua geração. Os críticos identificam no estilo econômico e pessoal do autor uma visão dramática do mundo moderno. Dizem que ele foi um 'fotógrafo da fragmentação contemporânea'.

Na perspectiva literária de Caio, a vida deve ser buscada contínua e intensamente. Só que ele não desvinculou a experiência literária da existencial. Como gay militante, em 1974, ao regressar de sua primeira temporada na Europa, desafiou o machismo das bombachas e chegou a andar pela Rua da Praia, em Porto Alegre, de brincos, bata de veludo e cabelos pintados de vermelho. Assumiu que era soropositivo num momento em que a aids era motivo de discriminação e preconceito. Sereno, dedicou-se à jardinagem nos últimos anos. Cultivava roseiras.

Como se conta a vida de um personagem desses? Como ser fiel à sua persona, à sua aura? Certamente não sendo linear nem careta. Polidoro e Nazário fizeram tudo, menos um documentário didático sobre o universo de Caio Fernando Abreu. No site do filme, um texto do autor serve como pré-roteiro. "Chorei três horas, depois dormi dois dias. Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia."

Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes é um documentário poético que se constrói através da obra de Caio. São sete blocos narrativos que, como ondas espumantes, criam uma tessitura dramática - as ondas da solidão, do espanto, do amor, da melancolia, do transbordamento, do irremediável e para além dos muros.

Só que não bastou buscar, na vida e obra, esses elementos para que Polidoro e Nazário decifrassem a personalidade do autor. Eles também recorreram a depoimentos de amigos - amigas - para os quais ele não é uma lembrança distante, mas uma memória viva (e estimulante). Adriana Calcanhoto, Maria Adelaide Amaral, Grace Gianoukas. Só que nem isso foi suficiente e Polidoro e Nazário viajaram numa outra galáxia. Para entender Caio, eles revisitam as cidades nas quais ele viveu. Porto Alegre, São Paulo, Santiago, Amsterdã, Berlim, Colônia, Paris, Londres. E tudo se mistura num tecido em que arte e vida, literatura e experiência, memória e lembrança interagem e se iluminam. Completam-se. O maior elogio que se pode fazer a Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes é que o próprio Caio, com toda certeza, se reconheceria no filme.

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