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Sete dias de chabu

Que fase! Nem as efemérides da semana contribuíram para aliviar a urucubaca governamental

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

12 de outubro de 2019 | 03h00

Uma semana para o governo esquecer. Nada deu certo. Crise conjugal com o PSL; vazamento de petróleo atropelando as queimadas na Amazônia; denúncias de torturas no presídio do Pará; Censura da Caixa arrolhada pelo Ministério Público; ministro do Turismo convocado pelo Senado para explicações sobre o laranjal; secretário-geral da ONU cobrando calote do Brasil; Trump negaceando apoio à entrada do Brasil na OCDE; campanha do pacote anticrime brecada pelo TCU; afora os sucessivos vexames dos ministros mais adestrados nessa especialidade, as bisonhas bravatas do presidente e as quase diárias patacoadas de 01, 02 e 03. 

Ao fundo ou redor, a intranquilizadora, mas não se sabe ainda se virótica, revolta popular contra o presidente do Equador. Sem contar os prêmios Camões e Nobel. 

O Camões foi anunciado em maio, mas ao se negar, no meio da semana, a pôr seu jamegão no diploma a se entregar a Chico Buarque em 2020, o presidente se expôs uma vez mais ao ridículo. “Se ele não assinar, será como um segundo prêmio Camões para mim”, rebateu de primeira o premiado autor. 

Quanto ao Nobel, os três que dividiram o de Física pareceram escolhidos a dedo para zombar dos criacionistas e terraplanistas que integram o núcleo mais paleolítico e biruta do bolsonato. O da Paz, bem, o da Paz virou quando Greta Thunberg, papa Francisco, Raoni e Lula se firmaram como os mais cotados nas bolsas de aposta, e que só acabou na sexta-feira, com a premiação do primeiro-ministro da Etiópia.

Que fase!

Nem as efemérides da semana contribuíram para aliviar a urucubaca governamental. Logo na segunda-feira, até porque não podia ser noutro dia, um site de notícias lembrou os 85 anos de uma histórica escaramuça nas proximidades da Praça da Sé, cuja exumação foi como falar em corda em casa de enforcado ou em cítricos no Planalto e no Alvorada. 

Em 7 de outubro de 1934, anarquistas, comunistas, trotskistas e sindicalistas, aglutinados pela Frente Única Antifascista, quebraram o maior pau com os integralistas no centro de São Paulo, que por ali pretendiam marchar em comemoração ao segundo aniversário do manifesto do movimento, cuja palavra de ordem era o imperativo de um verbo bem ao gosto bolsonarista: “Armai-vos”. Bem armada estava era a polícia, mobilizada para manter a ordem na passeata, da qual resultaram seis mortos e dezenas de feridos. Os integralistas, com suas indefectíveis camisas verdes, escafederam-se, mas sem os braços erguidos, na tradicional saudação nazi-fascista por eles adotada, é claro.

No Jornal do Povo, o libertário gozador Apparicio Torelly, mais conhecido como Barão de Itararé, useiro e vezeiros em tratar os fascistas tupiniquins de “galinhas verdes”, desmentiu a manchete de um diário paulistano – “Integralistas saem correndo” – com uma singela explicação ornitológica: “Um integralista não corre, voa”.

Voavam, corriam, praticavam atentados terroristas (tramaram assassinar Getúlio Vargas duas vezes), ensaiaram um contragolpe no Estado Novo em 1937 e uma intentona em 1938. Pioneiros na criação de milícias no País, um dia sequestraram o Barão, levaram-no a um lugar ermo, próximo à Gruta da Imprensa, na Avenida Niemeyer, zona sul do Rio, onde o despiram, rasparam-lhe a cabeça e o obrigaram a engolir um artigo de sua autoria publicado no jornal A Manha.

O que dizia o artigo de Torelly? Que o marinheiro João Cândido, o líder negro da Revolta da Chibata, e não o almirante Tamandaré, era a grande figura histórica da Marinha. 

Integralistas e antifascistas de variada coloração viviam se confrontando em diversos pontos do País, que às vésperas da guerra andava muito mais polarizado do que hoje e sem a válvula de escape das redes sociais. A AIB (Ação Integralista Brasileira) era um MBL com maior poder de arregimentação (chegou a ter um milhão de adeptos), mais audacioso e violento. Defendia um Estado forte, centralizado, de base religiosa, seus integrantes se diziam soldados de Cristo, templários da Pátria e da Família, a mesma farsa retórica dos demagogos e hipócritas de hoje e de sempre.

O que mais me espanta – e há muito queria dizer isso – não são as incontestáveis semelhanças entre o integralismo original (não seu patético ersatz que por aí vaga como alma penada) e o neofascismo chocado pelas galinhas, agora amarelas, que há dez meses chegaram ao poder, mas as suas diferenças. Ou, mais precisamente, o abismo existente entre os ideólogos da AIB e seus, por assim dizer, equivalentes atuais.

Esqueçam os ministros competentes de Getúlio, pensem apenas nos mais graduados galináceos da AIB: Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Gustavo Barroso, Miguel Reale, Luís da Câmara Cascudo. E comparem qualquer um deles com o chanceler Ernesto Araújo e os ministros Abraham Weintraub, Ricardo Salles, Damares Alves, Osmar Terra, etc. Ou, quem preferir, com o aiatolavo da Virginia.

Plínio Salgado era catolicão, chauvinista, tão fanático nacionalista que em seu mais badalado manifesto homenageou a anta, o mamífero totem dos tupis, mas era homem inteligente e culto. Leu todos os clássicos das teorias políticas e conhecia bem literatura. Escreveu ensaios influenciados pelo conservadorismo de Alberto Torre e Farias Brito, e um romance, O Estrangeiro, que muito devia a O Selvagem, de Couto de Magalhães, e marcou presença no Modernismo. 

Certamente ficaria horrorizado com a crassa e – o que é pior – soberba ignorância de nossas “otoridades”. E, para evitar errôneas atribuições, mudaria o título do Manifesto da Anta.

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