Sete décadas em oito baixos

Herdeiro direto de Luiz Gonzaga, Dominguinhos faz hoje 70 anos

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Legitimado por Luiz Gonzaga (1912-1989) como seu real herdeiro musical, Dominguinhos completa 70 anos hoje, mais de 55 deles dedicados à sanfona e a toda a profunda musicalidade nordestina, a partir do legado do rei do baião. Depois de ter passado por um processo de desentupimento das veias, ele recuperou a saúde e tem muito o que comemorar.

Amanhã, participa de uma festa em sua homenagem no Canto da Ema, reduto do forró em São Paulo, onde reina absoluto. O show conta com Elba Ramalho, sua fiel parceira "musical e espiritual" de longa data, Oswaldinho do Acordeon, Gabriel Levy, Cezinha, Mestrinho. "A turminha da gente", diz Dominguinhos, em animada conversa com o Estado em seu escritório no bairro do Paraíso. A ocasião também é propícia para o lançamento em DVD do documentário O Milagre de Santa Luzia, de Sérgio Roizenblit (leia abaixo). Trechos do filme, que tem Dominguinhos como condutor, serão exibidos durante a festa.

Desde que passou a ter medo de avião (nem ele sabe o porquê), a vida de Dominguinhos é rodar por esse país, dirigindo o próprio carro, a exemplo do Mestre Lua. E lá vai ele para o São João no Nordeste em junho de novo. "Tenho também um CD e um DVD já prontos, mas falta patrocínio para lançar. O disco é instrumental e se chama Iluminado. Foi ideia de Zé Américo, que chamou Wagner Tiso e Gilson Peranzzetta para fazer arranjos. Tenho outro trabalho pronto, que é a gravação de um show no Teatro Fecap. Estou terminando outro disco em Fortaleza com Adelson Viana, já tem 20 músicas prontas. Tem coisas novas e regravações de músicas antigas minhas que ficaram esquecidas", conta.

Ele também acaba de ter um choro inédito gravado no disco que vai marcar a volta do grupo Os Incríveis, produzido por Sandro Haick. Há duas semanas, gravou uma participação no novo álbum de Ziggy Marley, tocando sanfona. Depois da maranhense Flávia Bittencourt ter realizado um disco todo com suas canções, Dominguinhos é tema de um projeto cinematográfico de Mariana Aydar, com participação de vários convidados.

Ele também tem uma biografia que pode sair este ano. "Clóvis Nunes disse que está quase terminando esse trabalho, que ele vem lutando há muito tempo para lançar. Ele me disse que é uma coisa muito linda, que entrevistou muita gente."

Dominguinhos tocou nos regionais da Rádio Nacional e da Rádio Tupi e no mais importante de todos, o Regional de Canhoto, substituindo ninguém menos do que Orlando Silveira, ao lado de Dino de 7 Cordas, com quem gravou os primeiros discos na gravadora Cantagalo, a partir de 1964. "Aprendi muita coisa com eles, paralelo ao trabalho com Luiz Gonzaga", lembra o músico. "Fiz minhas primeiras gravações acompanhando Gonzaga com 16 anos, por volta de 1957. Depois eu só vivia na casa dele. Viajei muito com ele por todos os cantos. Eu tocava tudo exatamente como ele gostava. Isso tudo me ajudou muito."

O surgimento da bossa nova, depois do auge do baião, "acabou com o acordeom". "Os acordeonistas tiveram de mudar de estilo, muitos passaram a tocar piano, só ficou mesmo quem era do ramo", lembra Dominguinhos. Ele se manteve firme em seu propósito, mas foi se tornar nacional e internacionalmente conhecido só depois que Gilberto Gil gravou Eu Só Quero Um Xodó (pareceria com Anastácia) em 1973. "Desde Luiz Gonzaga, esse foi o primeiro grande sucesso de uma música nordestina", lembra Gil.

Naquela época foi que ele chamou Dominguinhos para gravar com ele o álbum Refazenda. E Gal Costa o convidou para tocar no disco e no show Índia (1973). Para Dominguinhos esses são marcos do renascimento da sanfona.

Em Refazenda, Gil gravou duas parcerias com ele que são fundamentais. Lamento Sertanejo, a canção mais representativa e mais regravada de Dominguinhos, era um tema instrumental "mais ligeiro" que o pernambucano tinha gravado em 1964. Gil colocou letra e a transformou numa toada. No mesmo disco, registrou outra obra-prima, Tenho Sede. "Para mim é a melhor gravação de uma música minha", diz o sanfoneiro. "A outra é Contrato de Separação com Nana Caymmi."

Mas o Brasil também foi contemplado com outras belezas dele: Gostoso Demais, com Maria Bethânia, várias na voz de Elba Ramalho (como De Volta pro Aconchego), De Amor Eu Morrerei exclusiva de Gal Costa, e animados duetos com Luiz Gonzaga (Quando Chega o Verão), Gil (Abri a Porta) e Chico Buarque (Isso Aqui Tá Muito Bom), parceiro dele em Xote de Navegação. "Chico demorou 15 anos para colocar letra nessa música, ficou uma maravilha."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.