Sessentona

Obra notável de Lina Bo Bardi, Casa de Vidro chega aos 60 anos em nova forma, com estrutura recuperada

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

Perspicaz, Saul Steinberg entendeu logo. De passagem por São Paulo, em 1952, o célebre ilustrador romeno ficaria hospedado na Casa de Vidro. E, diante da residência luminosa que Lina Bo Bardi havia acabado de erguer no Morumbi, não teve dúvida em declarar: "É uma casa poética". Em poucas palavras, Steinberg resumia o sentido que a arquiteta italiana, brasileira por adoção, tentou espalhar por suas obras. Lina gostava de dizer que arquitetura era estrutura. "Mas estrutura elevada ao nível da poesia."

Na casa de 1951, um de seus primeiros projetos no País, estava exposta uma espécie de súmula de suas ideias. Ao dispor o objeto geométrico, todo de cristal, no meio da mata, Lina parecia querer criar um lugar onde construção e natureza não precisavam ser necessariamente antagonistas, mas partes de uma unidade plena de sentido. O lar não devia estar ensimesmado. Não servia para proteger o homem de um ambiente exterior hostil. Suspensa no ar, a Casa de Vidro queria pairar e não se impor à paisagem. Era transparente para deixar o mundo entrar.

Passados exatos 60 anos de sua inauguração, a proposta da arquiteta continua viva, e o local, que serviu de morada a Lina e Pietro Maria Bardi, começa agora a retomar a antiga forma. Recentes obras de manutenção restauraram a estrutura do prédio, antes degradada. Os visitantes, mesmo que de forma parcial, voltaram. E, atualmente, estão em andamento dois projetos de organização do vasto acervo deixado pelo casal.

Depois da morte de Lina - ela morreu em 1992, ele em 1999 -, o espaço se tornou sede do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. Com o tempo, porém, os recursos escassearam e a casa foi sofrendo os efeitos do tempo. Quebrados, os vidros deixavam a chuva entrar. Goteiras e infiltrações estavam por toda parte. Cupins infestavam móveis, quadros e livros. A recuperação está em curso desde 2006. Mas ainda há muito a ser feito. "É um trabalho de formiguinha", diz Anna Carboncini, da atual diretoria do instituto.

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