Serrinha celebra as muitas artes de Ney Matogrosso

A 12ª edição da mostra, que começa na segunda, leva o título de 'Sangue Latino', em homenagem ao cantor e ator

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2013 | 02h13

A arte e a personalidade de Ney Matogrosso encontram paralelo em diversos sentidos na Serrinha, o parque das artes que fica numa fazenda em Bragança Paulista e abriga há 12 anos um festival que agrega artes visuais, música, teatro, cinema, gastronomia e preservação ambiental, sob a curadoria do cenógrafo e artista plástico Fábio Delduque. A 12.ª edição, que começa na segunda-feira, ganhou o título de Sangue Latino em homenagem ao cantor e ator, que encerrará o festival com duas apresentações de seu grandioso show mais recente, Atento aos Sinais, na cidade de Bragança. A homenagem também conta com a exibição do filme Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010), de Helena Ignez, no qual ele é o protagonista.

"Ney vai estar na fazenda pela primeira vez, mas já mostrei para ele todas as coisas de lá, que estão nos livros. É um artista que tem muito a ver com a Serrinha, pela multidisciplinaridade, pela abrangência do trabalho dele, que vai da música pra estética, pro teatro, a iluminação, a moda, o comportamento, mais a ligação com a natureza", afirma Delduque.

"Por tudo isso, vem de longe esse trabalho que venho fazendo com Ney e com Serrinha mais ainda. Desde o filme, Ney ficou fortíssimo em todo o meu trabalho artístico", diz Helena, que já filmou Canção de Baal na fazenda e vai rodar ali também durante o período do festival, parte de seu novo projeto, de novo com Ney atuando como ator: O Poder dos Afetos. Trata-se de "um curta-metragem de luxo que poderá entrar em qualquer festival importante de cinema" e ao mesmo tempo é um teaser de um longa, Ralé, e a introdução a esse documentário.

O filme gira em torno de Ney, que interpreta o barão, "um personagem catalisador, um artista plástico, pessoa de passado sofisticado, um dândi da alta sociedade, que acabou sendo derrotado pelas drogas e foi preso na Bélgica", segundo Helena. Depois de ficar preso por seis anos, o barão volta ao Brasil e pelo conhecimento que adquiriu na biblioteca da prisão sobre tratamentos medicinais para cura de drogas toma contato com a Ayahuaska (ou hoasca). "O curta-metragem mostra a recuperação total da vida dele, tomando uma antiga propriedade de seu pai falido", conta.

O cantor diz que leu o script do filme algumas vezes, mas ainda precisa conversar mais com a diretora para entender melhor o personagem. "No meu entender, ele é uma espécie de guru, mas é muito doido, porque tem muitas outras coisas que se espera de um guru", diz Ney.

Para a diretora, Ney "sabe por osmose e entende pela extrema sensibilidade". "O personagem é inspirado nele, mas ao mesmo tempo não é ele. O passado dos dois é diferente, mas é libertário, generoso e em que os afetos estão em primeiríssimo lugar."

Quanto ao show, o cantor diz que acrescentou duas canções que não estavam no roteiro original - Poema (Cazuza/Frejat) e Ex-Amor (Martinho da Vila), que gravou com o compositor - e, diante da série de protestos contra o governo que mobilizou o País, ganhou até um tom "profético". "Quando fiz esse show não sabia que ia dar nisso. Ocimar Versolato até me perguntou se agora eu fazia profecias. Não, mas quis montar um repertório sintonizado com o momento atual. E não acho que esse trabalho tenha sido misteriosamente ou por acaso, é uma coisa que a gente capta", acrescenta Ney.

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