TV Globo/Divulgação
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Série mostra a tragédia de um homem ridículo

Para Luiz Fernando de Carvalho, Afinal, o Que Querem as Mulheres? conta a travessia patética de um pesquisador em relação aos seus desejos e amores

Entrevista com

Patrícia Villalba/ RIO, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2010 | 00h00

Famoso por exigir da equipe, o diretor Luiz Fernando Carvalho parece a figura mais calma que anda de um lado para outro pelos bastidores de Afinal, o Que Querem as Mulheres?, num salão de beleza kitsch, empurrando o carrinho da câmera, verificando a maquiagem das atrizes ou posicionando uma figurante - que, logo mais, vai ganhar uma fala e subir degrau na carreira. O novo trabalho do diretor é resultado de sua busca por uma narrativa mais leve, que tem a ver com humor, mas não pode ser classificado como comédia, e deve ter muito a ver com leveza que se presencia no set.

Escrito por João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti e Michel Melamed, com texto final do diretor, Afinal, o Que Querem as Mulheres? conta as peripécias de um pesquisador, André Newmann (Michel Melamed), que escreve uma tese de doutorado sobre as maiores ânsias da alma feminina, a eterna pergunta de Freud. Mas não se iluda porque, embora Newmann tenha sucesso na ficção, a microssérie não pretende responder questões filosóficas. "Estamos apenas nos divertindo. Até mesmo, como seria possível encontrar uma única resposta que atendesse a tantas demandas dos desejos?", questiona Carvalho.

Com estreia prevista para novembro na Globo, a microssérie de seis episódios usa como combustível a repetição dos clichês amorosos e a incapacidade do protagonista em entender a própria mulher, apesar de se tornar um pop star da Psicologia. Sobre essas contradições do ser humano, tão patéticas e risíveis, o diretor teve a seguinte conversa com o Estado.

Você acumula trabalhos densos, ainda mais suas últimas minisséries. O que o leva à leveza da comédia?

Não chamaria de comédia, mas este deslocamento está vinculado à minha curiosidade por novos temas e linguagens, uma certa versatilidade narrativa. Sinto que cada conteúdo requer uma linguagem. E como não sou capaz de escrever um sitcom, aí vai minha pequena tentativa. Que não se parece com a arquitetura específica dos sitcoms que, gostemos ou não, é algo que pelo menos até os dias de hoje não faz parte da dramaturgia brasileira, e que talvez por isso a grande maioria soe como uma versão requentada de algo já visto fresco por outras bandas. É claro que há exceções, como Os Normais, que considero único. De minha parte, tenho consciência de que estou buscando uma narrativa mais leve, um outro gênero, mas que agora não saberia nomear exatamente.

Pelo que soube, há um jogo interessante em Afinal com os clichês amorosos. Por que essa repetição no comportamento humano o atraiu?

Há uma infinidade de repetições em todos nós, homens e mulheres, que nos curvamos muitas vezes em prol de um bem comum, um mundo melhor, princípios e moral elevada, enfim, tudo isso que me parece um material rico para dramaturgia. Por outro lado, a repetição destes comportamentos é cada vez mais tragicômica e ridícula. Se tivesse que resumir este seriado em uma frase, diria: a tragédia de um homem ridículo! Afinal, o Que Querem as Mulheres? conta a travessia patética de um homem em relação aos seus objetos de desejo, ao amor, aos afetos e a uma espécie de visão do feminino que parece o devorar sempre.

É fácil transformar o ridículo em algo engraçado? O patético não carrega certa melancolia?

Não sei ser engraçado, muito menos pretendo. Não peço isso ao atores, também não escrevemos o texto pensando em fazer graça, o resultado seria uma catástrofe. Já a melancolia me orienta, talvez tenha nos orientado no texto também e certamente já me salvou muitas vezes. Acho graça nos filmes de Chaplin, que ao mesmo tempo me levam às lágrimas, daí você tira o quanto estou dando os primeiros passos. É que ainda encontro certa dificuldade para crer que os acontecimentos e a narrativa de Afinal devam se concentrar em um único gênero. Fico me perguntando se um bom texto, moderno ou clássico, já não traz em si várias camadas.

Será que a complexidade do universo feminino, essa coisa de que as mulheres são impossíveis de entender, não é também um clichê dos relacionamentos?

Concordo plenamente. Me soa como um clichê machista. Essa ideia de que a mulher é um ser enigmático e distante é coisa do século 19.

Há alguma relação entre esse seriado e a comédia romântica?

Procuramos nos aproximar da linguagem das redes sociais, das mídias modernas, do diálogo curto, do diálogo fazendo o papel dos comentários da rede, com mais acidez, mais risco, uma linguagem mais direta, sem tantas reiterações da dramaturgia televisiva. Nunca pensei em comédia romântica, por não saber o que seja exatamente isso. E apesar da aparente leveza, há um conjunto de linguagens por trás desse trabalho que me interessa e que, na verdade, torna o todo algo bem indefinido em termos de gênero.

Você reveza as posições dos atores, que ora aparecem como personagens de mais destaque, ora como figurantes. É algo que lembra uma companhia de ópera ou teatro. Por que faz isso na TV?

Primeiro me faltava dinheiro no orçamento. Depois veio a ideia de trabalharmos pequenas narrativas, mas para isso precisava de um elenco grande. Junte-se a isso uma necessidade de continuar a trabalhar os atores como coautores do processo criativo, elaborando as cenas com boa dose de improvisação. No caso específico de Afinal, o Que Querem as Mulheres?, parti de um pressuposto: esse grupo de mulheres, que se revezam em várias cenas e em diferentes personagens, representa o desdobramento do feminino principal, Lívia, o amor primordial de André. Lancei o mesmo conceito para os personagens masculinos, que então representam o desdobramento do masculino, ou seja, do próprio André. Tudo coube no orçamento e os atores tiveram um exercício mais instigante.

A gente ouve dizer que você é bravo e exigente. Mas te achei bem tranquilo no set (e senti o respeito que a equipe tem por você). De onde vem essa fama?

O núcleo da minha equipe é o mesmo faz décadas. E isso hoje me tranquiliza muito, antes de serem excelentes profissionais são sensíveis coautores. Mas não foi sempre assim, passei muitos anos buscando por profissionais nas mais diversas áreas, testando, e que muitas vezes não correspondiam às minhas exigências. Passei a investir na formação, em oficinas de criação, que desenvolvo a cada trabalho desde (o filme) Lavoura Arcaica. Os talentos e os colaboradores foram aparecendo. Imagino que meu rigor possa incomodar aos descansados funcionários públicos, espalhados pelos mais diferentes cargos e funções e, confesso, sou bem duro com eles. Os que me acompanham sabem que a trajetória é árdua mesmo, estamos lutando contra muitos monstros e suas fórmulas tecnocratas, e isso exige rigor e alguns não estão preparados. Mas a excelência não é fruto de normas forçadas ou de um vocabulário obrigatório, isso seria apenas a repetição de um padrão, seja ele de excelência ou não. Essa repetição não nos deve interessar. Ao contrário, a excelência é fruto do prazer. É um conjunto lúdico que avança arrastado pela comunhão entre a intuição e o conhecimento de todos, movido pelos nossos sentidos e nossa consciência.

Você se sente em posição privilegiada na Globo, por ter liberdade (total?) para criar projetos especiais do nível de Capitu?

Essa afirmação de que eu tenho "liberdade total" é um clichê que não condiz exatamente com a realidade. Exigem de mim exatamente o que exigem de todo mundo: audiência, produtividade, entrega, orçamento. A diferença é que, por necessidade, priorizo certas etapas da criação e luto muito para incluí-las no processo de produção, por exemplo, a preparação dos atores. Como disse antes, é um caminho de muito rigor, traçado pelo trabalho e pela sensibilidade dos vários artistas que formam a equipe. E para isto não preciso de tanto mais tempo ou dinheiro assim, é uma questão de linguagem.

A polêmica em torno de A Pedra do Reino, a adaptação da obra de Ariano Suassuna para a TV, que foi chamada de hermética, mudou algo na sua maneira de criar e trabalhar?

Nos meus últimos trabalhos tenho me colocado muito ao lado dos atores, é como se saísse um pouco mais de trás da câmera, onde me escondo sempre, e tivesse tido a coragem de entrar na roda. Esse gesto me ensinou muitas coisas e certamente reorientou meu jeito de filmar, mas por algum motivo achei que em Afinal não suportaria entrar no tema com tanta cumplicidade com o drama de André, que necessitaria de um afastamento, por isso me agarrei a um certo sorriso crítico sobre os acontecimentos, assim não correria o risco de defender cegamente as ações do personagem, que me parecem bem contestáveis em alguns momentos. Como não sou ator, se não me agarrasse ao cômico, não conseguiria contar esta história. E, como diz Diderot: "As lágrimas dos comediantes lhe descem de seu cérebro; as do homem sensível lhe sobem do coração".

BASTIDORES

Dublê

Luiz Fernando Carvalho (foto) reuniu alguns amigos no elenco de Afinal, o Que Querem as Mulheres?, entre eles Rodrigo Santoro, que não é de aparecer com frequência na TV. Em participação especial, ele interpreta Rodrigo Santoro - não se trata exatamente do Rodrigo real, mas de um personagem baseado na imagem que a mídia projeta dele.

Dança das cadeiras

Na série, atores e atrizes se revezam em vários papéis - alguns com mais destaque, outros, figuração pura. Vera Fischer, por exemplo, será Celeste, a mãe do protagonista André Newmann (Michel Melamed) e se desdobra em outras seis mulheres.

Tempo

Ambientada em Copacabana e utilizando várias locações no bairro, a série levou dois meses para ser filmada - além de um mês para a preparação dos atores. Tem ritmo de produção e câmera de cinema, no caso, a Arriflex D21.

Sabedoria

Afinal, o que as mulheres querem? "Ser amada pelo seu homem e desejada por todos", responde uma das entrevistadas de André Newmann em uma das cenas.

Miragem

Na busca pelo entendimento da alma feminina, André Newmann recebe os conselhos do seu orientador psicanalista, Dr. Klein (Osmar Prado). Nos delírios do paciente, ele é o próprio criador da psicanálise, Dr. Freud.

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