Série de TV lembra faceta memorialista de JK

Muito se escreveu sobre Juscelino Kubitscheck, mas ninguém contousuashistórias melhor que ele, memorialista que, afastado da vidapúblicapela ditadura militar, abraçou a literatura. Lançou cinco livrosvolumosos, detalhando as passagens da história em que foiprotagonistaou coadjuvante. Foi um escritor sem pretensões artísticas, com umtextoágil que prende o leitor. A veia poética e afetuosa está nascartas,que podem chegar ao milhar. Ninguém conseguiu contá-las. JK mantevecorrespondência com amigos, parceiros, correligionários e afamília.?Ele escrevia muito para mim e minha irmã, Márcia, especialmentenasviagens e, mais tarde, no exílio. Contava tudo e dizia que ascartaseram os alfarrábios que consultaria quando fosse escrever suasmemórias?, conta a filha dele, Maristela Kubitscheck Lopes. ?Papaidormia pouco e aproveitava todo tempo livre para escrever ou ler.Muitas cartas foram escritas no avião, enquanto ele viajava peloBrasil, como presidente ou não.?O hábito da leitura veio da infância. Ainda menino, leu os livrosdeseu avô materno e da biblioteca pública de Diamantina. Adulto,iniciousua coleção, com livros de medicina, romances, filosofia ehistória. Abiblioteca de Juscelino está em seu memorial, em Brasília. Já acorrespondência virou relíquia. O Museu Arquivo da LiteraturaBrasileira, departamento da Casa de Rui Barbosa que guarda o acervodeescritores e poetas brasileiros, tem cerca de 50. ?Eram cartas para PedroNava, seu colega de faculdade, Carlos Drummond de Andrade e CirodosAnjos?, conta o presidente da Casa, José Almino. ?Com Nava, ele fazreminiscências da faculdade. Há uma para Ciro dos Anjos comentandoOAmanuense Belmiro. A Drummond, ele agradece a solidariedade dopoeta noperíodo mais duro de seu exílio, no início dos anos 70. Em todas,mesmonas mais informais, nota-se domínio do idioma e sólida formaçãocultural.?O biógrafo oficial de Juscelino, Ronaldo Costa Couto, conta queJuscelino expunha-se nas cartas. ?Soltava sua veia e mostrava-sepoeta?, lembra Couto. ?Ele fazia um diário, certamente pensando emsuasmemórias?, diz Couto. ?Quando a ditadura militar o excluiu da vidapública, o empresário Adolpho Bloch, da revista Manchete,ofereceu-lheum escritório na sede da empresa e lançou seus livros de memórias.?Foram cinco. A Marcha do Amanhecer é anterior a 1964. Depois veio asérie Meu Caminho para Brasília, o primeiro só com este título, de1974, o segundo, com o subtítulo de A Escalada Política, em 1976, eoterceiro, 50 anos em Cinco, lançado após sua morte, em 1977. Oderradeiro, Por que Construí Brasília, saiu antes 1976. Todosvenderammuito e levaram o presidente a candidatar-se à Academia BrasileiradeLetras, que lhe daria evidência e uma tribuna para expor suasidéias.Foi a única eleição perdida por Juscelino, que não se consideravaumintelectual e sim um humanista devido à origem interiorana. ?Ascidadesmineiras viveram muito isoladas no tempo em que não haviatransportes?,escrevera ele. ?Procuravam então formar seus próprios centros decultura, como as antigas ilhas gregas, onde os homens se recolhiamporanos para estudar e refletir.?Juscelino concorreu em 1975, com o escritor goiano Bernardo Ellis.Aspressões foram tantas que o presidente da ABL. Austregésilo deAthayde,pediu sua desistência. Houve três turnos, e a derrota, por um voto,intriga até hoje. Juscelino continuou um político popular da mesmaforma e seus livros foram para as listas de mais vendidos. Pena quenãosejam relançados. Hoje são peças de colecionador, encontráveisapenasem sebos e custam mais caro que publicações recentes.

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