Seriado explora os dilemas do poder

O Primeiro-Ministro, amanhã, vai mostrar a 'humanização' dos políticos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

 

Marcin Perchuc. "Era fundamental que fosse um ator desconhecido, já que estamos contando a história de um neófito", diz a diretora          

 

 

 

 

 

No original, chama-se Ekipa, que quer dizer "equipe", em polonês. No mercado internacional, ficou sendo Prime Minister e, no Brasil, onde estreia amanhã, no Eurochannel, O Primeiro-Ministro. É uma série que trabalha ficcionalmente o universo da política. Na Europa, virou um acontecimento, aclamada pelos críticos, prestigiada pelo público. Agnieszka Holland é a responsável pelo conceito geral, além de ter dirigido alguns episódios, incluindo o piloto. Foi, até certo ponto, um projeto em família, que ela desenvolveu com a irmã e a filha. Três mulheres - Agnieszka, Magdalena Lazarkiewsk e Catarzyna Adamik - investigam um universo tão tradicionalmente masculino quanto o da política. Numa entrevista por telefone, de Paris, a diretora fala de cinema, TV, Andrzej Wajda e O Primeiro-Ministro.

 

 

Estive há pouco na Hungria e fiz um city tour em Budapeste. Ao passar pelo prédio do Parlamento, a guia fez piada, dizendo que era "o nosso circo nacional". O que a levou a fazer O Primeiro-Ministro?

Se você conhece minha obra, sabe que a política está presente em muitos filmes. Pertenço a uma geração para a qual a política foi sempre importante, mas me pergunto quando ela não foi, na Polônia. Fui assistente de Andrzej Wajda, reputado como um autor político. Mas, quando comecei a trabalhar com ele, Andrzej estava numa fase que os críticos definiam como "formalista". Foi uma influência de mão dupla. Ele certamente me influenciou, como o grande autor que é, mas eu acredito que lhe devolvi o interesse pela política. A Polônia foi sempre muito dividida pela formação católica e a pressão comunista. Era jovem quando Lech Walesa fez história criando o sindicato Solidariedade. Lutávamos por liberdade, democracia. Quando o bloco soviético desmoronou e veio a democracia, ela trouxe também todo tipo de dificuldade material. Tivemos de aprender a conviver com nossas necessidades e defeitos. Quando as coisas não davam certo, não havia mais Moscou, a quem recorrer. Os políticos passaram a ser tachados de corruptos, o tal circo a que você se referiu. A minissérie nasceu do desejo de refletir sobre isso e também de ousar. Desde A Carreira de Nicodemus Dyzma, nos anos 1980, não se tratava a política como ficção na TV polonesa. A surpresa foi constatar que o público estava interessado, e como!

 

O começo é muito forte. O primeiro-ministro, que liderou o bloco de centro durante a oposição ao comunismo, é agora acusado justamente de ter sido um agente de Moscou. Ele renuncia e um político jovem, um professor de Economia e Ciências Políticas, vai parar no cargo, a princípio interinamente. Sua história teve base na realidade?

Não, mas ela antecipou a realidade. Houve uma comoção na Polônia e todo mundo se lembrou de O Primeiro-Ministro quando o presidente Lech Kaczinski morreu em abril, num acidente de avião, deixando um vácuo no poder. Nossa ideia era mostrar alguém despreparado para o poder e que chega um tanto puro a esse jogo muito pesado de barganha e concessão. O conceito era "o intelectual no poder". O que muda?

 

O ator Marcin Perchuc, que faz o papel, é desconhecido dos brasileiros.

Era desconhecido até dos poloneses. Era fundamental que assim fosse. Se estamos contando a história de um neófito no jogo do poder, não faria sentido recorrer a um ator conhecido. Marcin foi maravilhoso. Ele veio do teatro, possui técnica e presença física, uma combinação muito interessante.

 

Surpreendeu-a o sucesso da minissérie na Europa?

Vivemos num mundo em que as pessoas são estimuladas a pensar nelas e a não se ocupar da política, entregando-a aos profissionais. Foi muito estimulante perceber o interesse do público, mas ele veio pelo lado humano. As pessoas começaram a se perguntar o que fariam, no lugar de Konstanty Turski, o protagonista. Ao mesmo tempo, o fato de sua antiga aliada na oposição virar agora a líder do partido cria uma área de tensão em que se misturam o público e o privado. A ideia era essa. Desmistificar, ou melhor, humanizar a política.

 

QUEM É

AGNIESZKA HOLLAND

CINEASTA

Nasceu em 1948 e se iniciou na direção em 1977. Entre seus filmes mais conhecidos no Brasil estão - Colheita Amarga, Complô contra a Liberdade, Filhos da Guerra e O Jardim Secreto. Em 1995, dirigiou Eclipse Total, com Leonardo DiCaprio.

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