Seria uma pena nos privar de tanta beleza. Fica, Gisele!

ANÁLISE: Gloria Kalil

O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2015 | 02h06

Uma vez assisti a um vídeo antigo de um jogo do Santos contra um outro time paulista. Numa das jogadas a bola ia para o alto e vários atletas saltavam para tentar uma cabeçada. Surpreendentemente o menor deles, o mais baixo, subiu mais do que os outros, chegou antes e fez o gol. Era Pelé.

Outra vez fui ao Teatro Municipal para ver um balé. Nunca me esqueci da cena de abertura: três bailarinos imóveis de costas para a plateia. Por alguma razão especial, o público não tirava o olho do primeiro. Ao se virarem identificamos o bailarino: Mikhail Baryshnikov.

O que é esse "a mais" que faz com que algumas pessoas se distingam das outras?

Talento. Essa coisa difícil de definir e fácil de reconhecer.

A primeira vez que vi Gisele Bündchen na passarela, o mistério se repetiu: quando ela apareceu na boca da cena, as luzes do palco pareceram subir de voltagem e a sala deu a impressão de ficar mais iluminada e um pouco mais quente.

Ninguém encara uma entrada como ela: cabeça levantada, uma paradinha de meio segundo e uma jogada de pernas que se cruzam com audácia e força no passo a passo. Não tem para mais ninguém. Ela inventou um jeito de andar e de atravessar uma passarela que se tornou sua marca registrada e que é copiado pelas jovens modelos do mundo todo.

Não é só a beleza de Gisele que faz seu sucesso, ou o colorido dourado da sua pele e dos seus famosos e copiadíssimos cabelos, a perfeição das proporções, a elegância dos seus gestos. Outras modelos, tão lindas quanto, não mudam a temperatura de uma sala de desfiles como ela faz quando aparece. Assim como Pelé, ela pula mais alto.

Gisele surgiu em 1994 e modificou a cena fashion com suas curvas, seu ar de saúde e uma sensualidade natural, alegre e despreocupada. Um sol na passarela depois de algumas temporadas de modelos lunares, pálidas, sombrias e com cara de doentes que caracterizavam os desfiles e as fotos de moda nos anos 90, tempos do heroin chic.

Como Pelé ou Baryshnikov ou qualquer outra estrela na sua especialidade, Gisele se diferenciou, inovou. Ela fez mais, fez melhor, fez diferente; conseguiu dar personalidade ao seu andar, conseguiu inovar num espaço tão conhecido e percorrido como é a passarela de um desfile.

Tornou-se a modelo mais bem paga do mundo. Ganhou, só no ano passado, a quantia de 47 milhões de dólares. Sua fortuna, segundo a revista Forbes, chega hoje a 427 milhões de dólares. Nada mal para uma garota de 14 anos que começou sua carreira há 20 anos, saída da cidadezinha gaúcha de Horizontina.

Agora dizem que ela vai parar de desfilar. Que sua última entrada numa passarela será no SPFW, no dia 15 de abril de 2015. Pois espero que ela continue a fazer como Pelé. Em 1974, o atleta declarou que estava se despedindo dos estádios. Para alegria dos seus fãs, ele ainda jogou por mais três anos, sempre dizendo que aquela seria a última apresentação.

Aos 34 anos de idade, Gisele está no total domínio de sua profissão. Seria uma pena nos privar de tanta beleza. Fica, Gisele. Você pula mais alto!

*É jornalista, empresária e consultora de moda

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