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Sérgio Ricardo, o revolucionário amoroso

Lançamento de dois filmes do diretor recuperam um tipo de cinema que não é mais feito no Brasil

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2013 | 02h16

O lançamento de dois filmes de Sérgio Ricardo - o curta Menino da Calça Branca e o longa Esse Mundo é Meu, ambos pela Lume - permite observar um tipo de cinema que não é mais feito no Brasil. Ambos são datados - no melhor sentido do termo. Quer dizer, expressam, de maneira exemplar, a mentalidade, as aspirações, a sensibilidade de uma época, mostrando alguns valores dificilmente transferíveis para os dias de hoje. São, antes de tudo, preciosos documentos de época.

O próprio Sérgio Ricardo é uma figura e tanto a ser resgatada. Muito popular naquela época, hoje anda um tanto esquecido, ou, pelo menos, fora da mídia, que, como se sabe, usa critérios próprios para eleger suas pautas de interesse. Sérgio, quando é lembrado, o é como artista engajado, o que não deixa de ser correto. Certo, mas um tanto redutor. Ele vem da bossa nova e, como se sabe, esse movimento de jovens de classe média primava pela sofisticação harmônica e melódica e pelo conteúdo leve e romântico das letras. Para conferir, tente ouvir a belíssima canção de Sérgio Ricardo, Folha de Papel, de preferência na interpretação de Tim Maia. O que se tem aqui não é mesmo um revolucionário em armas, mas um poeta amoroso, cheio de inspiração.

Mas também é verdade que Sérgio, muito próximo do Centro de Cultura Popular (os CPCs) da UNE, a União Nacional dos Estudantes, tinha posições políticas muito claras (à esquerda, como a grande parte da sua geração). Transitava entre música e cinema, mesmo porque é irmão do grande fotógrafo e câmera do Cinema Novo, Dib Lutfi. Compôs, para Glauber Rocha, as trilhas de Deus e o Diabo no Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Enfim, a carreira toda de Sérgio se dá num contexto de luta política e arte engajada. E assim são seus filmes.

Esse Mundo é Meu, em primeiro lugar. É a história de dois personagens, um branco, outro preto, ambos vivendo em condições desfavoráveis. O homem negro, exercendo seu ofício de engraxate, tenta comprar uma bicicleta, signo de status que lhe permitirá conquistar a amada. O branco é trabalhador em uma fábrica e tenta dissuadir a mulher de praticar um aborto. As tramas são seguidas em paralelo.

De um lado, temos a câmera inventiva de Dib Lutfi, emprestando seu talento inquieto ao trabalho do irmão. Veja com atenção as imagens. Não há sequer um plano banal, nem um único clichê visual. Por outro lado, o enredo e sobretudo os diálogos estão recheados de mensagens políticas supostamente adequadas para a época. É o lado engajado de Sérgio Ricardo falando mais alto. A ligação com a estética do CPC leva a um certo didatismo, o desejo de passar a mensagem da injustiça social com pouca ou nenhuma ambiguidade.

Por outro lado, curiosamente, é no curta (em certo sentido um média) Menino da Calça Branca que encontramos a mão poética do autor muito mais solta. E não se trata de dizer que, aqui, ele estaria livre da preocupação política. Nada disso, o engajamento continua ativo e talvez mais eficaz ainda. A lírica da situação não encobre suas implicações sociais. A história é a do menino que sonha em ganhar calças brancas, iguais às de um homem que viu na rua. A duras penas, o pai lhe satisfaz o desejo, mas logo o garoto descobre que o sonho pode também se transformar em um fardo. Na prática, não existem diálogos. Tudo é movimento, expressão; poesia visual, em suma, carregada de muito sentido. Livre do discurso político, Sergio Ricardo, no rigor autoimposto da ausência de diálogos, colocou a imaginação visual para funcionar. E recebeu a graça da leveza, que é concedida a poucos.

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