Sergio Kokis entra com a parcela brasileira

Sergio Kokis é formado em psicologia na França e fez carreira universitária no Canadá, onde vive desde 1969. Tornou-se escritor e pintor. A euforia em torno de A Casa dos Espelhos levou o governo de Quebec a homenageá-lo batizando uma ilha com o título do romance, em 1997. Kokis, nascido em 1944, foi repórter na sua cidade natal, o Rio, onde também se formou em filosofia. Chegou a publicar um estudo intitulado Kafka e a expressão da realidade, transferindo-se então para a França, com bolsa de estudos, e também por causa de problemas com a ditadura militar.Seus livros foram vertidos para o inglês, o alemão, o espanhol e, agora, para o português. Para a ficção ele usa o francês, mas para a poesia pode ser o alemão, e, de preferência, o inglês. Nunca mais voltou ao Brasil nem sabe se virá algum dia. As lembranças não são boas e ele se sente canadense. Enfim, foi lá que se afirmou como intelectual e artista. Ele diz, numa entrevista distribuída (não se mostrou interessado em falar de novo) pela editora que, "naturalmente", não se sente estrangeiro no Canadá, na França ou Alemanha, ao passo que sempre se sentiu estrangeiro no Brasil. À parte o humor, está falando para valer.Lembra com amargura da Terra de Santa Cruz, notável pela desigualdade social: "O Brasil não se libertou ainda da escravatura e do colonialismo". É reticente a respeito de política: "Minhas experiências com os camaradas brasileiros de meu tempo (não se pode generalizar) não foram as mais agradáveis sobretudo porque a maioria dos engajados políticos na época eram de boas famílias, enquanto eu não podia contar com gente influente. Quando a coisa ficou preta, percebi que os camaradas eram um pouco menos sérios que eu - quando não eram abertamente traidores ou dedos-duros - e tive de me virar sozinho.""Dessa maneira, meus laços de amizade não eram também suficientes para recordar um Brasil acolhedor." Assim, qualquer plano de visitar o País foi sendo adiado. A adoção de novo idioma decorreu do processo "natural". Usando o francês, o inglês e o alemão, deixou o português de lado.Fala agora até o espanhol com mais fluência que o português. "Uma língua é uma entidade viva, que exige dedicação senão perde sua flexibilidade, sobretudo para a criação de obras de ficção. Por exemplo, minha poesia é toda escrita em inglês, uma língua mais propícia para a atividade poética que o francês; além disso, freqüento mais a poesia em inglês e em alemão que a em francês, talvez por causa da riqueza das traduções inglesas. Então, quando me meto a pensar, a estrutura poética aparece espontaneamente em inglês, às vezes em alemão, mas nunca em francês." Nesse sentido, os diferentes idiomas que conhece podem ser considerados como as tintas variadas usadas por um artista plástico, ou melhor, as modalidades nas quais se expressa: para determinado tema, a gravura; para outro, a escultura metálica; para outro, a cerâmica, o óleo, o acrílico, a têmpera, etc.A propósito, ele conta que a origem desse romance está numa longa reflexão sobre estética e psicologia da criação artística. O andamento foi curioso: "Minha reflexão cedeu pouco a pouco, durante o ato da escrita propriamente dito, ao prazer de desenvolver um tipo de personagem experimental para apoiar minhas reflexões." A coisa passava de 800 páginas e seu editor,um tanto assustado, sugeriu que separasse a parte ficcional, passando a desenvolver a parte teórica também em cursos e conferências. A ficção tornou-se, então, uma parte complementar da sua atividade artística, ou seja, quando descansa, carrega pedra: a literatura tornou-se para Kokis "o melhor passatempo" para os momentos em que está "cansado demais fisicamente para trabalhar" a pintura.Ele nega que o romance seja uma autobiografia. E explica o uso da primeira pessoa como recurso literário que lhe permite observar a dinâmica da personalidade de seu herói. "Além disso, a primeira pessoa me permite também exprimir as contradições do narrador durante os dois tempos do romance, suas mentiras e suas ilusões, sua maneira de fantasiar a realidade para que tenha sempre razão - um pouco como fazemos todos nós quando refletimos em silêncio sobre nossa própria vida."Kokis, que não faz questão de ser "diplomático", ainda gosta de ouvir Miltinho, Maísa, Pixinguinha, Moreira da Silva. Gosta do "grande" Nelson Rodrigues e do primeiro Jorge Amado, "do tempo em que ele escrevia literatura e não novelas adocicadas".

Agencia Estado,

22 de dezembro de 2000 | 17h27

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