Sérgio e Cláudio Mamberti louvam Plínio Marcos

"Quem conta histórias são os outros o Plínio vive e narra as suas aventuras. É claro que têm mentira envolvida nisso, o poeta é um fingidor, mas a verdade e a mentira acabam se envolvendo num rolo só, que constrói o autor". Esta definição de Cláudio Mamberti é a melhor que se pode dar neste momento de homenagem ao dramaturgo. Plínio Marcos, falecido em novembro de 1999, foi o autor brasileiro mais censurado e menos compreendido. Até o fim do ano três peças e uma exposição sobre ele tentam iluminar a trajetória deste autor que já chegou a ser considerado mais vigoroso que Nélson Rodrigues.O espetáculo mais esclarecedor sobre Plínio estréia hoje: O Homem do Caminho, no TBC, com os irmãos Mamberti - Sérgio, que dirige Cláudio no monólogo em que interpreta um cigano. O texto traz momentos autobiográficos que encantaram os Mamberti, amigos de infância de Plínio em Santos. Eles escolheram a peça para comemorar seus 40 anos de carreira.As outras duas montagens de seus textos estão previstas para outubro e dezembro. Primeiro, Sérgio Ferrara vai dirigir O Abajur Lilás com Ester Góes, Walter Breda, Iara Jamra e Magali Biff. Depois, Dois Perdidos numa Noite Suja será dirigida por Tanah Corrêa, com Alexandre Borges e José Moreira, no Teatro Plínio Marcos, administrado pelo diretor. Tanah Corrêa também organiza a exposição Plínio Marcos: um Grito de Liberdade, que será inaugurada em 19 de novembro, no Memorial da América Latina.Em Santos - A comparação com Nélson Rodrigues foi feita pela também santista Patrícia Galvão, a escritora modernista e militante comunista Pagú. No começo dos anos 60 ela leu a primeira peça de Plínio, Barrela, e com o elogio que fez ao então palhaço de circo Frajola, ele decidiu de vez que seu talento estava na palavra. Na mesma época, Sérgio Mamberti, já amigo de Pagú, apresentou a ela o irmão mais novo, Cláudio, que ainda não tinha escolhido sua profissão. "Pagú, este é meu irmão Cláudio, ele não sabe direito o que fazer, conversa com ele e mostra o seu projeto de teatro", disse Sérgio, na esperança de que ali o irmão escolhesse a arte, como ele próprio já havia escolhido. Um rol de coincidências semelhante desencadeou a escolha do texto de Plínio Marcos para as comemorações dos 40 anos de carreira do irmãos Mamberti. "Estávamos procurando um texto, quando o Tanah Correa nos mostrou o do Plínio e ficamos encantados. Na construção da montagem, nós nos lembramos do Plínio de Santos. Depois, quando ele veio para São Paulo, o Plínio conosco no Partido Comunista, ele conosco no Teatro de Arena", lembra Sérgio. Em O Homem do Caminho, o dramaturgo deixa o seu testamento artístico. O monólogo conta a vida do cigano de três nomes: Iur, Charlô e um terceiro, que lhe foi sussurrado de forma imperceptível pela mãe ao nascer, para que quando a morte o chamasse pelo nome ele não atendesse. Iur, trabalha em circo, joga tarô e mora nas ruas como o próprio Plínio já fez, mas as coincidências não páram por aí. "É uma peça em que ele se declara, dá pra ver no Iur nitidamente o Plínio e todo o seu inconformismo", diz Sérgio.O inconformismo, mais o texto cheio de palavrões deu a Plínio o rótulo de autor maldito, fazendo de suas peças as mais perseguidas e censuradas durante o período de ditadura. "A ditadura queria exterminar este tipo de pensamento crítico que o teatro estava criando e por isso foram tão cruéis com o Plínio Marcos", conclui o diretor.E éi usando metáforas para falar da censura, que o O Homem do Caminho realmente toca os sentimentos de uma geração de artistas da qual os irmãos Mamberti fazem parte (confira o trecho da peça). A geração que tinha Maiakovski como ídolo revolucionário. "O mais interessante é que Plínio conseguiu cruzar o discurso com a sua vivência pessoal, como Maiakovski", analisa Cláudio. "Quando Iur fala, ele fala da nossa geração de teatro. Ele fala do sofrimento da perseguição sem nenhuma comiseração, ele não se curva, e faria tudo outra vez", conclui Sérgio. O texto, inédito no teatro, já foi publicado como conto no livro Truque dos Espelhos pela editora Una, um mês antes da sua morte. Nele, as prostitutas e marginais, retratados nos textos de Plínio Marcos, dão lugar ao ambiente de circo e ao lirismo sofisticado dos ciganos. "Nessa peça do Plínio a gente vai ver o seu rigor estético, ela é escrita em versos, ele mostra toda a sua erudição. É aí que você vê a concisão da linguagem do Plínio, um teatro curto, vivo, poético onde o palavrão é uma forma realmente erudita de expressar a linguagem daqueles personagens", diz Sérgio. "A sensibilidade do Plínio, só pode ser percebida se você o encarar como poeta, e ele se coloca como poeta neste texto. Só assim se pode perceber a irmandade dela com Genet e Pasolini. No trecho "nas margens dos córregos onde escoa merda. É onde armo minha poesia" - isto é Genet."Para viabilizar a montagem, os irmãos pediram ajuda aos filhos. Carlos Mamberti filho e agente de Sérgio, fez a produção executiva e ajudou o tio Cláudio na captação de recursos para a peça. "Com os parâmetros que estão aí colocados para captação, o Plínio Marcos não cabe nos incentivos culturais de ninguém. Quando a família se reuniu a coisa mudou de figura e virou uma idéia mercadológica muito bem estruturada. A gente representa uma força muito importante dentro do teatro e da vida artística brasileira e já existia uma expectativa na nossa reunião. O retorno financeiro que a gente teve quando anunciou o projeto foi grande, os cotistas quiseram investir na montagem", observa Cláudio. "Dinheiro de graça vem caro. Nesta peça, as pessoas compram cotas de investimento do espetáculo e depois recebem parte do retorno financeiro que o espetáculo pode dar." Os figurinos e o cenário também foram conseguidos através da simpatia de Gabriel Vilela pelo projeto da família de homenagear o dramaturgo. O palco foi feito com pedaços de uma charrete que vendia frutas na rua do TBC. "O Gabriel comprou do vendedor para fazer o cenário, ele já tinha esta idéia e quando ele leu o texto achou que seria perfeito", conta Sérgio. O clima cigano também aparece nas músicas que Tunica e Aline Meyer compuseram para o espetáculo.O Homem do Caminho. Tragicomédia. De Plínio Marcos. Direção Sérgio Mamberti. Duração: 1 hora. De quinta a sábado, às 20 horas; domingo, às 18 horas. Ingressos: R$ 20,00. TBC - Sala Assobradado. Rua Major Diogo, 315, tel. 3115-4622. Até 28/10

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.