Sérgio Cabral doa seu arquivo musical ao MIS

Jornalista coleciona material sobre MPB desde os anos 60 e promete não parar

Agencia Estado

12 Junho 2007 | 03h46

O apartamento de Copacabana em que vivem Sergio Cabral e a mulher, Magali, finalmente será só do casal. Por mais de três décadas, o jornalista e a museóloga dividiram o lar com a vasta coleção dedicada à música brasileira montada com esmero por ele: pastas e mais pastas com recortes de jornais, documentos, fotografias e correspondências, mais de mil LPs e CDs, além de livros e objetos que pertenceram a artistas. Agora septuagenário, o pesquisador carioca destinou boa parte do acervo ao Museu da Imagem e do Som (MIS), no Rio. Cabral oficializou a doação na terça-feira, 29, dia de seu aniversário. A cerimônia foi bem a seu gosto: com música (na Sala Cecília Meireles, na Lapa) e em meio a dezenas de amigos. "Eu estava tomando banho hoje e pensei: ´Por que estou doando agora, aos 70 anos?´ Acho que foi porque quando me dispus a doar ao MIS, há muito tempo, eu marquei os 70 anos, algo muito distante, uma idade de gente muito velha. Hoje vejo que um garoto como eu pode ter 70 anos", brincou, ao chegar à sala. No programa da noite, apresentações de composições de Ary Barroso, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Pixinguinha, Braguinha, Rildo Hora, Wilson Moreira e do próprio Cabral. Foram muitos os abraços afetuosos e as palavras de admiração - com uma hora de atraso, Sergio Cabral Filho, o governador do Rio, também apareceu para prestigiá-lo. Era de Sergio, garoto, o quarto que acabou tomado pelo acervo, contou Magali; o restante ficou entre a sala e o sítio da família: "Moro num arquivo, não numa casa. O arquivo sempre foi mais importante do que o resto. Nem sei se vou me acostumar a ter tanto espaço de repente", disse, fazendo graça. Sem parar Magali jura que não está aliviada com a partida da coleção. Isso apesar de ter sido obrigada a receber em casa, durante todos esses anos, estudantes e pesquisadores, que chegavam até com máquinas de xerox portáteis para fazer cópias para seus trabalhos. Futura diretora do Museu da República (a nomeação deve sair nos próximos dias), Magali confessa, no entanto, que já teve de frear as intenções do marido: "Não são só papéis. Tem a máquina de escrever que pertenceu ao (jornalista) Jota Efegê, a caneta do Donga. Um dia, ele pediu para que eu fizesse vitrines para guardá-las. Eu falei: ´Ah não! Aí já é demais!´" Cabral, freqüentador do MIS de longa data, não vai parar de colecionar (ele começou nos anos 60, mas só passou a organizar o que guardava na década seguinte). Também não vai desfazer-se de tudo, tudo. Afinal, ainda pretende trabalhar por muitos anos, e precisa de material de pesquisa para tal. O mesmo material que subsidiou os textos, biografias (Tom Jobim, Ary Barroso, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Almirante) e a peça de teatro (Sassaricando, com Rosa Araújo, diretora do MIS) que escreveu. "Não tenho ciúme de nada. Sei que o arquivo vai ficar mais bem guardado no museu. A gente coleciona, coleciona e depois faz o quê? Tem de passar adiante!", sentenciou o desprendido Cabral.

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