Guga Melgar/Divulgação
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Sérgio Brito estreia 'Recordar é Viver', no Rio

Britto, aos 87 anos, e Suely Franco, aos 70, voltam a atuar juntos nos palcos cariocas

Roberta Pennafort,

03 de agosto de 2010 | 18h45

RIO - Sérgio Pedro Corrêa de Britto já foi um rapaz tímido, que estudou Medicina só para satisfazer os pais e que demorou para confiar no próprio taco como ator. Suely Franco Mendes sempre foi despachada, brincava de ser atriz desde criança e, quatro décadas antes de encarnar a doce Dona Benta, fez babar muito marmanjo como uma das Certinhas do Lalau.

 

A amizade entre os dois atores começou em 1962, quando trabalharam juntos pela primeira vez na TV (no Grande Teatro Tupi) e no teatro (na estreia de O Beijo no Asfalto, escrita por Nelson Rodrigues especialmente para o Teatro dos Sete, da qual Sérgio fazia parte com Fernanda Montenegro e Fernando Torres, entre outros).

 

Quatro anos depois de Outono e Inverno, peça do autor sueco Lars Norén em que foram dirigidos por Eduardo Tolentino, o encontro se dá de novo, a partir desta quarta, 4, em Recordar É Viver, no palco do teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, ele aos 87 anos recém-celebrados, e ela, aos 70, e novamente com a direção do fundador do Grupo Tapa.

 

Mais uma vez, Sérgio Britto e Suely Franco vivem marido e mulher na velhice às voltas com o azedume que pode marcar a vida em família. Na segunda, eles conversaram com o Estado. Estão contentes, impactados pelo texto de estreia do jornalista Hélio Sussekind, trazido por Tolentino, e à vontade em meio ao restante do elenco: quatro atores com metade de sua idade.

 

"Estou mais uma vez com Suely como um casal que briga. Só que agora as brigas são mais diretas!", diz Sérgio. "A maneira de Tolentino dirigir é especial, ele trabalha junto com o gente", complementa Suely.

 

Para o ator, há 65 anos na ativa, é uma forma de se esvaziar de Beckett, depois da aplaudidíssima atuação em A Última Gravação de Krapp e Atos Sem Palavras 1. "A peça é apaixonante, o texto é danado. Tenho tanto prazer em fazer quanto tenho num Beckett. Eu chego igual, desprevenido, desarmado", explica.

 

"Depois de ganhar seis prêmios, um exagero, pensei: O que fazer? Beckett é o auge do teatro... Então desci um pouco. Estou numa situação confortável, de poder escolher o que fazer. Mas já lutei muito para não fazer besteira na minha carreira. Fiz o menor número possível."

 

A casa é de uma família de classe média carioca. Alberto e Ana têm três filhos adultos. O caçula, Henrique, dramaturgo pretensioso e fracassado, não trabalha, vive à custa dos pais, e preocupa a mãe por seu quadro depressivo. É um representante da chamada "geração canguru": tem 30 anos, mas não consegue saltar para fora e pavimentar o próprio caminho, talvez pelo excesso de amor que recebe em casa.

 

O pai é complacente. "Tem tempo!", pondera, quando cobram iniciativa do filho. A namorada de Henrique, Bruna, é vivida por Isabel Cavalcanti, atriz que dirigiu Sérgio fazendo Beckett e agora curte os ensaios com o companheiro de ofício.

 

O texto tem humor, mas é também melancólico, e emociona. "Não é um Strindberg, um Ibsen, é Brasil!", resume Sérgio. "Como é que alguém pode envelhecer tanto?", pergunta a personagem de Suely Franco, apontando a debilidade do marido. "A única coisa que fica mais bonita com o passar do tempo é o passado", ele diz numa briga, em resposta à obsessão da mulher por olhar slides antigos, de quando os filhos eram pequenos.

 

Há alguns anos, Sérgio reclamava que não havia papéis para atores de sua idade. Chegou a encomendar a Domingos Oliveira dois textos, que deram origem aos sucessos Sergio 80 (2006) e Jung e Eu (2003).

 

Hoje, vivendo um homem pelo menos 15 anos mais jovem do que ele, assiste aos colegas Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis e Leonardo Villar na novela Passione (o papel de Villar foi escrito por Silvio de Abreu para Sérgio, mas ele não cedeu à exigência da Globo para abandonar o programa na TV Cultura Arte com Sérgio Britto).

 

"Aprendi a procurar os papéis. Tudo que fiz de melhor no teatro, fui eu que produzi. Ano que vem, vou fazer O Canto do Cisne, do Chekhov, um velho ator que conversa com o camareiro."

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