SÉRGIO BORGES

O Céu Sobre os Ombros é o único filme nacional no festival grego de Thessaloniki. Chegou-se a dizer que filmes como os de vocês, da Teia, que contam histórias típicas do Brasil, são os que os europeus querem ver. Isso explica o sucesso do filme?

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h08

Há filmes da Teia, como Girimunho, que têm coprodutores europeus. Mas acho que quando se diz isso é porque o público estrangeiro quer ver histórias diferentes contadas de forma única.

Disso não se pode reclamar em O Céu. Os três personagens existem, mas parecem irreais.

Essa foi desde o início a minha preocupação. Pesquisamos, entrevistei centenas de pessoas até encontrar os três personagens que simbolizassem isso, que tivessem histórias reais, mas parecem inventadas. Ao mesmo tempo, queria tirá-las do exótico e levá-las para o cotidiano.

Como chegou aos personagens?

Além da pesquisa, que foi selecionando, eu sempre quis retratar personagens que possuíssem um contraste grande. Edjucu 'Lwei' é um escritor marginal que nunca teve um livro publicado e é sustentado pela mãe e pela mulher, tem um filho com deficiência, que ele ama e odeia ao mesmo tempo. Murari Krishna é o personagem que tem a dualidade da paz, é Hare Krishna e, ao mesmo tempo, líder da torcida do Atlético Mineiro. E há a Evelyn Barbin, transexual formada em psicologia.

Aliás, retratar uma transexual, que é prostituta e também trabalha como professora, é, no mínimo, corajoso e incomum.

A Evelyn tem uma história de vida muito difícil. Desde a infância lutou muito para ser ela mesma. Estudou psicologia, fez mestrado, discute Foucault e Freud com naturalidade incrível. Chegou até a começar a se comportar como o personagem do livro. É incrível o limite entre o que é nossa realidade e o que construímos para nós.

É essa a sua maior vontade, de encontrar a ficção na realidade e a realidade na ficção?

Queria retratar esse limite entre os dois mundos, onde começa uma e acaba a outra. Queria também retratar a marginalidade, mas, de forma carinhosa e doce com meus retratados. É um filme sobre nada, e ao mesmo tempo, sobre muitas coisas. Tem a ver com a busca de cada um de ser a si próprio, com todas as contradições que carregamos.

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