Serginho Groisman desafia madrugada

O longo período de hibernação a que Sérgio Groisman foi condenado pela Globo serviu para recarregar as baterias e estrear, com potência atômica, nas Altas Horas da madrugada do sábado. Fora do ar há mais de um ano, quando deixou o Programa Livre para tentar a vida no Rio, Serginho surgiu mais elétrico no vídeo do que nos tempos do SBT. Em termos de desempenho, saiu vitorioso porque conseguiu melhorar o ibope do horário: registrou 11 pontos de média (na Grande São Paulo), contra os 6 ou 7 que a emissora vinha marcando.O inventor do papo-cabeça com jovens não conseguiu, no entanto, livrar-se da maldição que o persegue desde que deixou a TV Cultura. Serginho, cuja principal reclamação no SBT era a inconstância - seu programa mudou de horário nada menos do que 37 vezes -, estrearia à meia-noite, mas só entrou no ar à 1h15, depois que os dinossauros do Jurassic Park deram adeus. A estratégia da emissora foi exibir o filme de Spielberg para "entregar" um bom índice de audiência para o Altas Horas, o que de fato aconteceu: o programa começou com 22 pontos no Ibope. A desvantagem, ou seja, a diminuição do número de telespectadores acordados, veio com o avanço da madrugada.Não há dúvida de que Altas Horas vem melhorar o indigente sabadão da TV, assim como é incontestável o talento de Sérgio Groisman como animador. A idéia de sabatinar estrelas no estúdio com a ajuda da platéia jovem é herança do Programa Livre e do Matéria Prima. Debater temas polêmicos, como o homossexualismo, confrontando militantes do movimento gay e machistas assumidos, também já fez parte do repertório de Serginho.A novidade é discutir comportamento a partir de experiências inusitadas, como levar senhoras idosas para ferver em uma rave. A incursão pelo universo clubber deu chance para quem não faz parte da tribo conhecer por dentro essa nova onda das grandes cidades. Outra novidade é a invenção do mascote tecnológico: uma câmera de TV manipulada à distância. É constrangedor ver a máquina ser tratada como personagem, especialmente quando ela "beija" os convidados a pedido do apresentador. Invadir o camarim de estrelas, como Sandy e Júnior, para uma entrevista informal é, isso sim, utilizar bem os recursos da emissora.Mas o maior problema do Altas Horas não é o programa, porque ele tem ritmo, boa pauta e conversa inteligente. A adequação entre horário e público é o grande desafio. Ao que se sabe, nas noites de sábado a moçada de todas as faixas sociais está na rua, nos bares, danceterias, menos em casa. Se a emissora não encaixar o Altas Horas em outro lugar da grade, Sérgio Groisman corre o risco de ser forçado a modificar a fórmula do programa para agradar insones mais maduros. É aí que mora o perigo, porque mais uma vez o adolescente vai deixar de ter voz para ser mero coadjuvante na TV.

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