Zé Paulo Cardeal/ TV Globo
Zé Paulo Cardeal/ TV Globo

Serginho Groisman comemora 22 anos de 'Fala, Garoto'

Para o pai do 'Matéria Prima' / 'Altas Horas', a televisão brasileira sempre falou com a classe C

CRISTINA PADIGLIONE - O Estado de S.Paulo,

02 de maio de 2012 | 03h06

Fazer o mesmo programa por 22 anos, em três emissoras distintas, é ato heroico. Serginho Groisman chega aos 61 anos entoando seu "Fala, Garoto" sem arranhar a matriz do Matéria Prima (TV Cultura), que já foi Programa Livre (SBT) e originou o Altas Horas, agora em seu 12.º ano. Nem a desesperada busca atual pela nova classe C abala suas convicções. "A TV aberta sempre falou com esse público."

São princípios endossados na figura de quem não se rende a qualquer vintém pelos intervalos comerciais e faz da TV o seu princípio, o meio e o fim. "Eu gosto de fazer televisão, não faço disso um trampolim para outras coisas", sintetiza ele ao Estado, em entrevista exclusiva em sua sala, na Globo São Paulo.

Estar na madrugada lhe dá ampla possibilidade de experimentar. Você acha que conseguiria fazer isso em outro horário?

No ano passado, a gente teve três programas que foram ao ar mais cedo, depois do Zorra Total, e tivemos uma resposta muito boa de audiência. É um horário que dá para experimentar, sim. Acho que se subestima muito o público e agora entrou essa coisa de 'falar com a classe C'. A televisão sempre falou com a classe C, com quem a gente falou até hoje? Sempre achei a televisão muito popular. E, de certa maneira, o espectador criou, não vou dizer sofisticação, que é uma palavra muito forte, mas ele melhorou. Ele absorve melhor coisas diferentes, mas ainda convive com muita porcaria.

O programa do Luciano Huck é visto como algo mais popular, por isso é exibido à tarde, e o seu seria mais elitista - daí a madrugada. O Altas Horas é elitista?

Não, eu não acho que seja elitista. Temos Michel Teló e Tiago Abravanel no mesmo programa. Não importa quem você traz, o importante é o que faz com quem você traz. As pessoas querem informação, mas querem se divertir também e querem se divertir com aquilo que elas se identificam. Às vezes vai haver ali alguém que o público nunca viu, mas que ele até terá paciência de ver porque depois vem alguém popular.

Como é possível manter a matriz do Matéria Prima, só revezando quadros novos, por 22 anos?

Tudo nasceu em cima de uma reflexão sobre a democratização da TV, eu ficava perguntando como as pessoas poderiam ter acesso direto à programação. Quando apareceu a possibilidade de fazer um programa de auditório, pensei num programa em que as pessoas interferissem, onde o auditório não só aplaude e ri. A iluminação é igual para todo mundo: para o ator, para a banda e para a plateia, para que todo mundo tenha a mesma importância. E as pessoas estão muito próximas do entrevistado, até para confundir entrevistado com plateia.

Nesses 22 anos, você enfrentou pressão para mexer na espinha dorsal do programa?

Não, todos nós trabalhamos em empresas que têm os seus critérios, isso é normal. Eu tive uma dúvida muito grande em largar o SBT para vir para cá, de interferirem na minha proposta, mas aí as propostas foram evoluindo, até que resolvi vir. E o Silvio (Santos) disse: 'Tudo bem, você vai pra lá, você não vai dar certo lá e você vai voltar pra cá, então eu vou manter o Programa Livre pra você.' Tanto é que manteve mesmo durante bom tempo.

Qual é a sua relação com os colegas da casa, Luciano Huck, Xuxa...?

Tenho boas relações com eles, mas tenho poucas pessoas conhecidas que são realmente amigas. O Samuel Rosa, a gente viaja junto. O (Marcelo) Tas...

Não é aquele sujeito que acaba de conhecer o Faustão e o convida para padrinho de casamento. Você recebe convites desse tipo?

Não. Acho que o comportamento da gente também vai determinando isso. Não existe essa coisa de pessoas que te perseguem, existe quase uma cumplicidade entre imprensa e quem quer ser celebridade. Acho também que não sou muito notícia.

E não fez muita propaganda até hoje. Você não recebe propostas ou recusa muitas?

Não fiz mesmo. Em publicidade, recuso muita coisa porque tem que valer a pena emprestar sua imagem para alguma coisa.

Você diria que o que ganha como funcionário da Globo basta?

Eu gosto de fazer televisão, venho todo dia para cá, não tenho outros negócios. Eu não fiz da televisão um trampolim para fazer outras coisas.

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