Será que é de verdade?

Experiência audiovisual de extremos, The Wall não é só para os fãs do Pink Floyd

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h08

Sim, custa caro. Mas uma ópera-rock das dimensões de The Wall, que chega amanhã a São Paulo (Estádio do Morumbi, com bis na terça), é digna de ser vista não só por especialistas em Roger Waters. Ao aliar o rock and roll de uma de suas melhores fases aos conceitos mais extremados de espetáculo, se torna grandiosa. O que se viu na noite de quinta no Rio foi uma experiência audiovisual que o mundo tem acompanhado desde que Waters colocou o maior épico do Pink Floyd na estrada.

Aos menos dispostos com megaconcertos, um aviso: o teatro de The Wall pode cansar. É muita informação para duas horas de show. Tudo começa em meio a fogos de artifício. O muro-telão de resolução inacreditável que domina o cenário começa a entrar em ação, para ser construído em cena e, depois, derrubado. Tem 137 metros de extensão, 11 de altura e mais de 400 'tijolos'.

Serão exibidas nele pichações anticapitalistas, fotos de militares mortos em conflitos, de crianças famélicas e do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto pela polícia inglesa em 2005 e extensivamente homenageado por Waters na turnê. São 12 músicos, três guitarristas fazendo as vezes de David Gilmour. O álbum duplo é todo executado, de In The Flesh? a Outside The Wall. Há intervalo de 20 minutos entre os discos um e dois, providencial para um descanso.

As mensagens políticas contra os efeitos devastadores do totalitarismo, terrorismo e outros ismos vão perdendo o impacto ao longo da noite. Algumas são tolas, como a animação em que aviões, durante Goodbye Blue Sky, despejam, como se fossem bombas, símbolos diversos - da concha da Shell e do M do McDonald's à estrela de Davi (as declarações anti-israelenses e pró-Palestina de Waters renderam reclamações da Federação Israelita do Estado do Rio). Outras são poderosas: o vídeo que mostra crianças americanas recebendo os pais militares de volta ao som de Bring The Boys Back Home é emocionante.

Ouvem-se helicópteros, choro de criança, risos, todos aqueles barulhinhos. A massa sonora toma o ambiente, as caixas de som são distribuídas por vários cantos. A tecnologia é tanta que no show do Rio, quando um avião comercial sobrevoou o estádio, um garoto ficou em dúvida e perguntou ao pai: "Será que é de verdade ou também foi ele que trouxe?" Cerca de 50 mil pessoas assistiram. No Morumbi, esperam-se 70 mil por noite.

Pais e filhos eram fáceis de reconhecer: o cinquentão e o adolescente, duas camisetas de tijolinhos. "Esse não é meu disco preferido, mas não poderia perder nem deixar de trazer a família", dizia, com orgulho, Paulo Aquino, de 55 anos, com a mulher e dois moleques, de 15 e 19 anos. "Sou baixista, como Roger, e ouço Pink Floyd direto há uns três anos", contava o mais novo, Carlo. A noitada custou R$ 2,3 mil.

Na quarta, dia de chuva forte no Rio, Waters havia afirmado em entrevista para poucos jornalistas - de cunho mais político do que artístico, já que queria anunciar seu apoio ao Fórum Social Mundial Palestina Livre, em Porto Alegre, em novembro -, que não lhe importava se chovesse durante o show. "A chuva não é perigosa, só é molhada. Mas com vento não dá para tocar, porque as pessoas iriam morrer." Parecia piada.

Só ao se deparar com a megaestrutura no Engenhão é que se entende o alarde. Técnicos trabalham suspensos boa parte do tempo. Câmeras acompanham Waters de cima para que as melhores imagens sejam projetadas. Músicos surgem no alto do muro em momentos de solo. Os bonecos de 10 m de altura (o professor de Another Brick in the Wall, a mãe, a mulher de Don't Leave Me Now) também requerem atenção.

Não se deve perder tempo discutindo o preço e a temperatura da cerveja. O muro está vivo, muda a todo minuto. "Existe um muro entre a realidade das nossas vidas e o que nos é mostrado, que passa pela mídia, pela sociedade de consumo", Waters disse na entrevista. "Quando escrevi The Wall tinha meus 30 e poucos anos, e àquela época eu achava que era só sobre mim. Eu me dei conta nos 30 anos seguintes que não era isso."

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