Será o ocaso de um gênio extravagante e excêntrico?

Hoje haverá o desfile de alta-costura da Maison Dior. Paetês, tules, pratas e diamantes, beleza, provocação e triunfo garantido, como acontece todos os anos. Mas desta vez com uma inovação: o diretor de moda da Haute Couture Dior, John Galliano, não estará presente. Ele foi suspenso pelo proprietário da Dior, o poderoso Bernard Arnault, da LVMH, uma das maiores fortunas da França, que ganha toneladas de dólares e de euros vendendo produtos de alto luxo - vestuário, perfumes, joias...

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2011 | 00h00

Mas por que motivo Arnault terá afastado o seu principal estilista, John Galliano, cujo simples nome provoca desmaios de suas belas e elegantes clientes em Berlim, Londres ou no Rio de Janeiro?

John Galliano é um superdotado. Entre as figuras extravagantes que compõem o pequeno mundo dos criadores de moda, ele bate absolutamente todos os concorrentes. O próprio Karl Lagerfeld, com suas roupas do século 18, ou Jean-Paul Gaultier e seu gosto pelos "pompons" dos marujos, não passam de "coroinhas" perto de Galliano. Vestido de toureiro ou de cosmonauta, de Napoleão ou de ilusionista ou mesmo a torso nu, ele é o personagem mais delirante dos desfiles da alta-costura delirante, que ele oferece todos os anos à tribo dos esnobes.

Essas extravagâncias são apreciadas pelos donos da LVMH. São elas que "vendem". Mas então, por que Galliano foi suspenso de repente e talvez seja até demitido definitivamente? É que ele exagerou na extravagância. Uma noite, num bistrô da moda, La Perle, saturado de bebida, teria insultado alguns clientes.

Houve dois incidentes. Ele chamou uma senhora de "judia suja, feia, obscena". Semanas antes, atacara outra senhora. Um vídeo mostra a cena: Galliano, em condições lamentáveis, usando um chapeuzinho grotesco, berrando: "Adoro Hitler. Pessoas como vocês deveriam ser eliminadas. Seus pais, suas mães são uns putos debiloides". A mulher perguntou se ele tinha algum problema, e Galliano retrucou: "Você é tão feia que não suporto olhar para a sua cara. Suas coxas e suas botas são nojentas. Suas sobrancelhas são imundas, você é desprezível, não passa de uma p..., qualquer um pode ver!"

Isso explica a violenta sanção adotada pela LVMH: racismo e antissemitismo são inaceitáveis. Evidentemente, Galliano é considerado um "gênio", além de ser o responsável pela fortuna e pela celebridade da Maison Dior. Mas, com o racismo, ele exagerou. Em seus delírios, John Galliano insultou também os "putos desses bastardos asiáticos". Ocorre que entre as clientes de Dior há muitas senhoras de Hong Kong e de Xangai.

É preciso acrescentar ainda que, há alguns meses, Galliano (de 50 anos), que baseou seu sucesso certamente no talento, mas também na excentricidade, teve um esgotamento e ficou histérico. Ele bebia exageradamente, falava coisas muito loucas. Parecia deprimido, triste.

Indubitavelmente, ficou muito abalado com a morte de pessoas próximas a ele: há três meses, seu companheiro, Steven Robinson, foi encontrado morto em sua casa. No ano passado, um dos seus amigos, Alexander McQueen, antigo aluno, como Galliano, da prestigiosa Saint Martin"s School de Alta-costura de Londres, se suicidou. Sua estilista, Isabella Blow, também se matou tomando herbicida.

Juan Carlos Antonio Galliano, o gênio nascido em 28 de novembro de 1960, em Gibraltar, de pai inglês, um jornalista que virou encanador, e de uma espanhola louca por moda, fechou-se em si mesmo. Sua aparência é a de um pedinte. Na última briga no café La Perle, os insultos começaram porque seus vizinhos de mesa o tomaram por um vagabundo, um miserável, e ele não gostou.

O que fará agora a LVMH? Confirmará a demissão do seu "gênio" ou o perdoará? Arnault teme que a imagem do seu "império" fique com menos brilho por uma suposta cumplicidade com um homem culpado por um crime imperdoável - o racismo. Na França, o xingamento público de caráter racial é um crime passível de uma pena de dez meses de prisão e de uma multa no valor de 22.500. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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