Ser sagaz era mais importante do que dizer a verdade

Depoimento: Fred Kaplan

FRED KAPLAN É JORNALISTA, ESCRITOR, , COLABORADOR DE PUBLICAÇÕES COMO A REVISTA SLATE, AUTOR DE GORE VIDAL: A BIOGRAPHY , O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2012 | 03h10

Gore Vidal se via como um dos americanos originais. Por nascimento e herança, tomava-se como um fundador da elite americana. Uma das suas características era nunca subestimar o próprio valor e seu potencial de contribuir para a vida pública. Mas ele também superestimou sua capacidade se adaptar à vida de uma figura popular. Tinha apenas um grande interesse, a que se dedicava com grande talento intelectual: ele mesmo. Gore Vidal tinha inúmeros admiradores, mas não amigos.

Eu concordo com os críticos que o consideram um romancista menos bem sucedido do que o ensaísta. Foi na forma do ensaio que ele atingiu seu potencial literário. Seu imenso talento foi às vezes desperdiçado. Entre os romances, recomendo Burr e Juliano, o Apostata como pérolas, mais do que Lincoln, que foi um best-seller.

Gore Vidal, na tradição de Norman Mailer e Truman Capote, achava mais importante ser sagaz, espirituoso, do que dizer a verdade, que ele me perdoe onde quer que esteja agora. Assim como Mailer e Capote, acreditava no papel do escritor como uma figura heroica, que deve mudar o mundo. Bem, o mundo hoje não mais reserva lugar para este tipo de escritor, afinal a ficção e a literatura não têm mais a importância social daquele tempo.

Com toda a sua inteligência, nem sempre tomava decisões sábias sobre a própria obra. Ao editar o The Essential Gore Vidal, argumentei com ele que não fazia sentido ter uma edição de capa dura (hardcover), de preço elevado, pois o importante era o livro sair direto na edição capa mole (paperpack), para que ficasse em circulação e acessível a estudantes e jovens leitores. A Random House lançou apenas a edição hardcover e hoje ela está fora de circulação.

Tempos depois, se eu hoje tivesse que recomendar para um jovem um primeiro encontro com a obra de Gore Vidal, diria o seguinte: comece por uma seleção de ensaios, pela importância do estilo e pelo valor histórico de seus textos. Leia trechos de Burr e Juliano, o Apóstata. E leia todo o romance satírico Myra Brecknridge.

Resta falar da política e acredito que seus pronunciamentos a este respeito, na última década, o alienaram do público. Nada do que ele escreveu nos últimos quinze anos tem a importância da obra anterior. Mesmo os maiores admiradores dele, recentemente, acabaram se resignado ao seu comportamento de excêntrico e mal humorado.

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