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Ser professor nos tempos do cólera

Que honra que eu sentia por ter feito parte da formação e do caminho daquele menino

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2016 | 02h00

A primeira vez que me chamaram de professora, tive um imenso sentimento de culpa. Sentia-me uma impostora, recebendo um título que eu julgava não merecer. Era meu primeiro dia de aula como professora universitária, eu tinha 22 anos. Demorei para me acostumar com esta palavra, que até hoje me soa mais como elogio do que como mera forma de tratamento.

Hoje em dia, já viro o pescoço quase toda vez que ouço alguém dizer “professora”, não importa a hora nem o lugar. Fenômeno parecido com o que acontece com pais e mães quando ouvem essas palavras. Parece que determinados títulos se torna equivalentes aos nossos próprios nomes, a ligação entre nós e eles é imediata.

Uma vez, estava num bloco de carnaval em Ipanema quando uma aluna gritou “PROFESSORA!”. Disfarcei as cervejas e dei um abraço sorridente. Outra vez foi no Guarujá. Encontrar aluno em trajes de banho, uma coisa terrível na vida de qualquer professor. Também já teve encontro no Mercado Municipal, no meio do sanduíche de mortadela. Na fileira de trás do avião. No meio de show no Rock in Rio. Na sala de espera do exame de sangue. Não tem escapatória, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Achava que a coisa mais impressionante que tinha me acontecido nesses anos tinha sido um dia em que emparelhei com uma viatura da polícia militar e um policial gritou “PROFESSORA!”. Quase enfartei até entender que era o Márcio. E, sem pensar duas vezes, comecei a dar uma bela bronca no policial dizendo que ele andava faltando muito na aula. Depois, pensei que ele estava armado e que poderia me prender por desacato. Mas professores são professores, não tem jeito.

Contudo, ontem aconteceu uma coisa ainda mais impressionante. Estava aqui em Lisboa, no metrô, umas 8 da noite, torcendo para chegar logo e assistir ao jogo Benfica x Napoli pela Liga dos Campeões. O vagão estava vazio. Um rapaz entrou e veio caminhando para o assento em frente ao meu, sentou-se, olhou para a minha cara e... “PROFESSORA!”. Fiquei confusa, não dou aula em Lisboa. Mas na hora em que olhei para a cara dele tive certeza de que era meu aluno.

Ele explicou. Foi meu aluno na zona leste de São Paulo. Formou-se em Administração de Empresas e teve aula de Direito do Trabalho comigo há uns 4 anos. Disse que me escreveu, perguntando o que eu achava de um MBA na Universidade Nova de Lisboa. Lembrei-me da conversa e que eu lhe disse que era uma ótima ideia. E cá estava ele, tinha chegado sozinho havia dois dias, numa cidade que não conhecia, para encarar seu maior desafio.

Trocamos contatos, um abraço e desci na minha estação. Eu mal podia acreditar. Nem sei dizer qual probabilidade era menor: a do menino entrar no mesmo vagão e sentar na minha frente ou a do menino simples da zona leste voar até a Europa para fazer um MBA numa universidade de renome. 

Subi as escadas do metrô e encontrei a noite fria. Caminhei pensando na honra que eu sentia por ter feito parte da formação e do caminho daquele menino. Fiquei pensando na medonha situação na qual o Brasil mergulhou e na asquerosa fala de um ministro da Educação que disse que quem pode pagar universidade, como seus filhos, fará curso universitário e que quem não puder pagar, simplesmente não fará.

Como professora de uma faculdade particular direcionada para a classe média baixa na zona leste de São Paulo, doeu pensar que poucos meninos voarão como ele – sobretudo daqui para frente. Mas como professora vocacionada de corpo e de alma, incuravelmente otimista e inconsequentemente intransigente, pensei que nada vai nos fazer parar. Nem corte, nem PEC, nem nada.

Seguiremos questionando, criticando e pressionando. As salas de aula seguirão como berçário do inconformismo. E, nós, professores seguiremos firmes como seus obstetras.

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