''Ser, para o homem, é transcender''

Leia, a seguir, uma entrevista e um artigo inéditos do ensaísta, crítico e filósofo paraense Benedito Nunes, um dos mais expressivos intelectuais de sua geração, que morreu domingo, aos 81 anos

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

05 Março 2011 | 00h00

O verdadeiro sábio não lamenta nem o que vive nem o que morre. O verso é do Bhagavad e foi lembrando pelo ensaísta, crítico e filósofo Benedito Nunes, morto no domingo, dia 27, a certa altura de uma longa entrevista - foram mais de três horas de conversa - concedida em maio de 2008 na varanda de sua casa, no bairro do Marco, em Belém, cidade onde nasceu, e até aqui, mantida inédita. É fácil não lamentar a vida de Benedito - um intelectual vigoroso, com rara folha de serviços prestados à literatura brasileira, como o exaustivo exame da obra de Clarice Lispector, que lhe rendeu muitos ensaios, a partir do pioneiro livro O Mundo de Clarice (coletânea de artigos publicados na década de 1960 nas páginas do Estado). Difícil é seguir seu entusiasmo com o ensinamento do célebre texto hindu e não exprimir lamento por sua morte.

De bermuda e tênis, cercado por plantas (naturais) e pássaros (de madeira) - condições em que costumava trabalhar -, Benedito falou sobre filósofos, literatura amazônica e, claro, Clarice: "Ela dizia que tinha medo até do Mickey Mouse. Uma angústia com certo humor". Também ele era bem-humorado, com a vida e a inexorabilidade da morte. O homem "nasce para a morte", enfatizava, sereno. Filosofia e sabedoria sempre foram mais do que uma rima. "Ser, para o homem, é transcender", acreditava ele. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Onde o senhor conheceu a escritora Clarice Lispector?

Ela morou em Belém. O marido dela, Maury Gurgel Valente, era um elemento de conexão entre o Itamaraty e as Forças Armadas aqui sediadas. Não a conheci na época, eu tinha 12 anos, só lia gibi (risos). Só vim a conhecê-la na década de 70. Ela esteve na minha casa. Naquele dia, Clarice disse uma coisa que considero o maior elogio que recebi. "Você não é apenas um crítico literário." Eu gostei. Ela não me considerou no ramerrão da crítica literária, que é uma coisa tão precária no Brasil.

Viver em Belém ajuda seu trabalho?

Tem algo de positivo e de negativo. Negativo porque todo livro que quero tenho de mandar buscar. É uma questão mais de esforço, persistência. Sempre tive biblioteca particular. Quando comecei a lecionar filosofia, aos 19 anos, aqui não havia nada. Eu traduzia tudo para os alunos - Platão, Aristóteles. O ponto positivo de morar em Belém é que eu estou num lugar, digamos, independente, livre de fofocas, de encrencas.

Dizem que na Amazônia o tempo é outro.

Antes sim. Agora, não mais.

Como o senhor avalia a produção literária na Amazônia?

Há uma obra de Bruno de Menezes, Batuque, livro muito interessante, que procura introduzir certos ritmos na literatura, o tan-tan, os ritmos negros. O único que tinha feito isso antes no Brasil era o Jorge de Lima. O regionalismo foi superado com Graciliano e Rosa, que têm multilínguas abreviadas dentro do chamado sertão. A literatura brasileira se tornou complexa. Ela se desenvolveu muito, tem algo de filosófico.

O escritor Dalcídio Jurandir é universal?

Acho que sim. Ele é um escritor notável, autor de dez romances.

Como foi a experiência de Crônicas de Duas Cidades - Belém e Manaus livro que reúne o senhor e Milton Hatoum?

Muito prazeroso.

As imagens da selva parecem sufocá-los.

A literatura sempre transcende a situação que descreve. Se não transcende, não é literatura.

Consta que o senhor não sai de Belém porque é difícil se mudar quando se tem uma biblioteca.

Ah, sim (risos). É difícil.

Quantos livros tem a sua biblioteca?

Não conto. A única vez que contei foi quando fiz uma doação para o Centro de Cultura Cristão, de Ananindeua.

Doou livros para uma instituição religiosa?

É, religiosa (risos). O padre me disse: "Mas você e agnóstico!".

O senhor é reconhecido como um dos poucos filósofos no País que fala o que pensa, pois aqui há mais estudiosos que interpretam outros. O brasileiro receia pensar por si?

Não é um receio de pensar por conta própria. É que, na verdade, a universidade brasileira surgiu muito tarde. A formação regular universitária é recente até em filosofia. A minha formação regular é em direito.

Como foi o início do interesse do senhor pelo trabalho do filósofo Martin Heidegger?

Recebi uma encomenda. Pediram para eu fazer um trabalho sobre ele. Engraçado: sempre escrevi por encomenda (risos). Foi aí que entrei nos problemas de linguagem. Minha paixão pelo Heidegger começou com o Ser e Tempo. Tentei conectar Ser e Tempo com a obra posterior, porque não há um nexo de sistematização.

Em Hermenêutica e Poesia, o senhor escreve: "Ser no mundo implica por isso transcender no mundo".

Nós resistimos transcendendo o mundo. Ser, para o homem, é transcender.

O senhor gosta da filosofia hindu?

Gosto. Há um verso muito bonito do Bhagavad: "O verdadeiro sábio não lamenta nem o que vive nem o que morre".

O que o senhor quer dizer quando escreve que "há o ser para a morte"?

Heidegger pensava na morte como amadurecimento; é um fruto que chega ao seu tempo. Amadurece e morre. A morte é inerente à nossa condição. Eu cito um provérbio alemão: "Basta o homem nascer que ele já é bastante velho para morrer". Ele "é" para a morte. Não se trata de uma ideia funesta da condição humana. Agora, como é o outro mundo, isso é outra coisa. A gente não fala do outro mundo (risos).

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