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Ser ou não ser abissal

Num livro situado entre a ficção e a filosofia, Vilém Flusser, pensador checo que viveu no Brasil, e o artista e cientista francês Louis Bec criam um molusco humanizado

MOACIR AMÂNCIO,

10 de dezembro de 2011 | 03h00

Imagine-se um livro monstruoso, escrito como um poema em prosa, mas que é filosofia, lembra ao mesmo tempo Lovecraft e Bachelard, emociona, provoca, inquieta e faz rir. Esse livro tem um título luciferino, Vampyroteuthis Infernalis, ou seja, Calamar-vampiro do Inferno. Não se enquadra em modelos - no final há lugar até para um manifesto. Se quisermos incluí-lo em alguma tradição literária e não em diversas, será preciso pensar numa tradição que inclua o vário. Romance? Talvez, na medida em que o romance busque a sátira menipeia, quando a ficção absorve tudo, à moda de um molusco sugador, e revela o mundo como uma ficção científica, política, histórica, religiosa e filosófica.

Mesmo a origem do livro é dúbia, assim como os idiomas em que foi escrito por Vilém Flusser (1920-1991), pensador judeu checo que para se salvar do nazismo veio em 1941 para o Brasil, onde permaneceu até 1972, escrevendo coisas importantes como Língua e Realidade e Naturalmente, ensinou e publicou ensaios inesquecíveis no Estado. Transferindo-se para a Itália, França e Alemanha, deu prosseguimento ao seu trabalho e começou a ser reconhecido em nível internacional. Este livro teve uma primeira versão em alemão (1987), depois veio a brasileira - inédita até agora -, com algumas alterações em relação ao texto primitivo, segundo Gustavo Bernardo no prefácio.

O autor, portanto, coloca-se antes de mais nada como artista, aquele que produz objetos, inventa, faz ficções. Seu objeto fabuloso neste caso mimetiza um pequeno molusco de 30 centímetros, que vive pelos oceanos a mil metros de profundidade. Inicialmente foi definido como um polvo, mas depois, constatou-se, era um calamar, lula. Habitante oculto em sua própria pequenez, num mundo escuro, e hoje ao alcance de qualquer mortal no YouTube: realmente lembra um polvo, a cabeça, os tentáculos, mas tem "orelhas" de lula e os braços são ligados por uma membrana em guarda-chuva - parece um morcego. Emite luz e os olhos são vermelhos ou azuis, enormes. No entanto, após a leitura do breve livro de Flusser, poderemos concluir que aquele bicho fantástico, capaz de se virar pelo avesso, de brilhar com luz própria e emitir jatos de sépia, não é Vampyroteuthis. É, sim, um disfarce para que o aceitemos e assim comece a inocular em nós o fascínio e a prática do inferno, o mundo escuro onde se insinua como o outro definitivo do homem, isto é, demasiadamente humano, seu grande trunfo. Os seus tentáculos tudo permeiam e a rede internética torna-se uma extensão dele. O organismo torna-se mecânico e se reproduz ao dominar ação e pensamento do homem.

Para conhecer Vampyroteuthis seria preciso ir além da tela do computador, num mergulho intuitivo, enviesado, para fora e para dentro, ao mesmo tempo. Com ironia e humor que neutraliza qualquer tom apocalíptico, Flusser insinua, em movimentos tortuosos, que sem essa viagem pelo chão das águas marinhas - origem da vida - o homem não terá chance de sobrevivência, a não ser em sua porção vampyroteuthis, rumo à perfeição do aniquilamento. Ele é dotado de inteligência e linguagem, mas uma linguagem de engano (comunica-se para dizer o que não é, a fim de atacar e destruir o semelhante, fugir, ou para fazer sexo - se bem que nele a atividade sexual revela-se permanente e de corpo inteiro). É o inferno agindo: mesmo em meio a uma abundância de crustáceos e demais guloseimas, de repente investe contra outro vampyroteuthis num ato de canibalismo, ou então despedaça os próprios tentáculos até a morte, em fúria autofágica. Suponhamos: a intenção extrema seria devorar o próprio corpo em sua integralidade, sem deixar vestígios, a não ser por outro jogo de prestidigitação com a tinta que já não disfarçaria o corpo do vampiro em fuga, mas sua ausência definitiva, um último jogo de esconde-esconde. Quer dizer, não será possível livrar-nos dele. Pois ele reaparecerá, como Drácula, ou na impressionante ilustração cinematográfica da primeira versão de Alien (1979) que, dos confins do universo - analogia com o mar - ressurgirá, e de um ser humano qualquer.

Na internet alguém associou Alien a uma lula gigante. Não localizei, porém é mais do que provável, pelo óbvio, que já tenham ligado aquele filme à ficção flusseriana, abrindo caminho para a análise de um possível diálogo entre a obra coletiva do cinema e a obra literária supostamente individual. Essa individualidade funciona em parceria, pois a rigor o texto aqui é a ilustração dos desenhos de Louis Bec, publicados no final do volume, que inspiraram Flusser - teríamos pelo menos um triângulo a tratar de bestialidade, totalitarismo, automatização, técnica e organismos mecanizados. Claro, desde o início essa "fábula" pode ser percebida como um texto pós-Shoá, pós-catástrofe, o Holocausto em hebraico, para identificar o nazismo pela sua obra, revelando-o com a cara real, no eterno presente, e não como imagem lustrosa delirante em seu romantismo mítico-mistificador. Nessa perspectiva, Alien, o filme, torna-se expressão do próprio Vampyroteuthis, que se vai diluir na ideia de que tudo não passa de fantasia a ser reproduzida, "apenas", na série cinematográfica e dos videogames. O maior truque do diabo é provar que não existe. É quando ele se efetiva no inócuo do disfarce fantástico e passa a nos programar, transformando-nos em meros instrumentos. Só o resgate da individualidade "pode evitar que nos transformemos em herdeiros e transmissores de informação programada", como funciona o vampyroteuthis flusseriano. A arte vampyroteuthica, resultado de mecanização gelatinosa, nos desviaria do humano, do "artifício, a artimanha. Que evitemos todo romantismo. Porque Vampyroteuthis ilustra a essência do romantismo: o inferno". O autor adverte, a tentativa de domesticar a lula-vampiro será inútil, de nada adiantará pretender civilizar o ser abissal, focá-lo com as lanternas do Iluminismo, do Humanismo. Porque é aí que ele se oculta em meio a cores e neblina.

Ao vampiro deve-se opor um dinamismo, a fim de quebrar a cegueira tirânica: o "intelecto crítico e desperto, e seu lado ‘profundo’ de emotividade onírica e vertiginosa. Tal engajamento pode permitir que, uma vez encontrado Vampyroteuthis, este seja reconhecido não apenas como núcleo do lado emotivo do homem, mas igualmente como sustentáculo do lado intelectual do homem. Tal tipo de expedição pode conseguir fazer com que Vampyroteuthis emerja sem que exploda e que o homem possa assumi-lo sem ser achatado por ele". Porque, se eliminarmos a pressão sob a qual ele vive, estaremos eliminando a matéria de nossa sustentação na superfície e que nos faz homens - o bicho pegará de vez. O vampiro, lembra o autor, já surgiu na "forma de serpentes devoradoras de navios" e "sob forma de ideologias sangrentas nos programas políticos da dita ‘direita’. Sob forma de anseio de orgasmo permanente, de revolução permanente, nos programas políticos da dita ‘esquerda’. Vai surgindo sob as formas mais inesperadas nas análises psicológicas, nas lógicas e nas teológicas, e nas futurologias de todo tipo. Em todos esses lugares Vampyroteuthis vai surgindo como nosso próprio espelho".

Uma objeção ao final explícito, ao manifesto, pode ser feita se levarmos em conta que isso implica uma quebra no sugestivo poético do texto para cairmos na prosa unívoca. No entanto, essa objeção encontra seu oponente na composição híbrida do livro que representa, enfim, a vivaz expedição de Flusser ao coração das trevas. Nessa fábula, como a denomina o autor com sagacidade, temos a literatura recuperada em sua amplitude, não um mero exercício de gênero.

TRECHO

"Humanizar Vampyroteuthis implica vampyroteuthizar o homem. 'Salvar' o Vampyroteuthis implica 'perder' o homem. Porque não é apenas verdade que Vampyroteuthis habita as profundidades humanas, mas igualmente verdade é que o homem habita as profundidades de Vampyroteuthis. Se os teólogos elevam o inferno até o céu, é que estão infernalizando o céu. Se os cibernéticos deliberam a programação, é que estão programando a deliberação. Se os lógicos formalizam o pensamento, é que passam a pensar formas. Se os nazistas libertam a voz do sangue, é que estão sufocando em sangue a liberdade. Vampyroteuthis não pode ser elevado até a clara luz do dia: já que, ao aparecer, surge com ele a paixão resplandecente da noite.

Não pode, pois, haver síntese 'homem-Vampiroteuthis'. O encontro dos dois por mais cuidadosamente que tenha sido preparado, não resulta no ser platônico em forma de esfera, munido de oito extremidades e de dois rostos, o qual é a restauração de unidade original perdida. Todo encontro dos dois resulta em híbrido, no qual é libertado o Vampyroteuthis no homem, e o homem no Vampiroteuthis. É a tal espetáculo monstruoso que assistimos, toda vez que o Vampyroteuthis emerge.

Devemos pois desconfiar dos educadores iluminados. E mais ainda dos que desprezam superficialidades e almejam o que é profundo. Porque o que tais espíritos profundos desprezam é a humanidade humana, e o que almejam é a vampyroteuthidade humana. E o que visam 'salvar não é o Vampyroteuthis no homem, mas o homem no Vampyroteuthis."

AMPYROTEUTHIS INFERNALIS

Autores: Vilém Flusser e Louis Bec

Editora: Annablume

(160 págs., R$ 30)

MOACIR AMÂNCIO, PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA DA USP, É AUTOR DE ATA (REUNIÃO DE POEMAS, RECORD), E YONA E O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA E CABALA (NANKIN/EDUSP)

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