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Ser feliz na pandemia

Podemos não estar esfuziantes, mas ainda que tristes é viável encontrar fontes de contentamento mesmo na adversidade

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 03h00

Lembra quando você aprendeu o que eram antônimos? Quente e frio. Alto e baixo. Dia e noite. Claro e escuro. Feliz e trist

Embora os exemplos funcionem para nos ensinar o que é um antônimo o último deles nos dá uma ideia equivocada sobre nossa vida emocional. Assumimos que felicidade é o oposto da tristeza, alocando essas emoções em polos opostos da realidade, como se fossem incapazes de se encontrar. O que não é verdade. 

Quando cremos que elas são mutuamente excludentes como claridade e escuridão ou calor e frio, imaginamos que essas emoções funcionem também como tais antônimos. Nós sabemos que só esfria quando o calor vai embora. Conforme a luz cresce, diminui a escuridão. Então acreditamos que a felicidade precisa diminuir para a tristeza crescer. Como se uma só pudesse chegar expulsando a outra de nossa mente. A consequência prática é que nas situações em que uma delas surge com mais força, chamando nossa atenção, imediatamente deixamos de olhar para a outra, acreditando que ela não estará mais lá. E fazendo isso podemos sem perceber transformar uma pequena tristeza numa grande angústia. 

Eu sei que pode ser chocante descobrir que conceitos tão diferentes não são opostos. Lembro quando aprendi na segunda série, com a tia Cida - hoje terceiro ano do ensino fundamental - que salgado não era antônimo de doce. Mas assim como no caso dos sabores, felicidade e tristeza são conceitos distintos e distantes, mas não necessariamente contrários. Elas são deflagradas por gatilhos diferentes e representam respostas a pensamentos ou situações que podem acontecer concomitantemente. 

A tristeza indica para nós perda. De algo, de alguém, irreversível no passado ou inevitável no futuro. Já a felicidade aponta para a satisfação de necessidades. Por isso que podemos ficar felizes com um pudim de leite, uma promoção, um casamento ou uma aspirina. Claro que é uma simplificação, mas ajuda a entender porque não é espantoso podermos ficar tristes e felizes ao mesmo tempo. É muito possível - diria até que provável - que nos momentos em que amargamos perdas importantes tenhamos também várias necessidades supridas. Podemos não estar esfuziantes, mas ainda que tristes é viável encontrar fontes de contentamento mesmo na adversidade. 

Mesmo na pandemia? Sim, mesmo na pandemia. 

A lista do que perdemos nos últimos meses é extensa, com muitos motivos para nos lamentarmos e nos entristecermos. Vidas, amigos, parentes, artistas, negócios, oportunidades, abraços, festas. Não faltam razões para as lágrimas. Mas ainda assim é possível encontrar a felicidade em muitos momentos também. Telefonemas, videochamadas, festas-surpresa virtuais, gestos solidários, vínculos reforçados, insights criativos. Muitas coisas boas aconteceram e continuarão a acontecer em meio a esse caos. 

Descobrir que podemos nos alegrar no meio de tanta tristeza não serve para negarmos nossa dor - é preciso viver os lutos para poder seguir em frente. Mas é fundamental para equilibrarmos nossa balança emocional enquanto avançamos até que tudo isso passe. Porque (e isso também é motivo de alegria) vai passar. 

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