Ser escritor é transformar mentira em arte, diz Alan Pauls

Escritor argentino convidado da Flip fala sobre seu romance O Passado

Rafael Calixto, do estadao.com.br

13 de julho de 2007 | 10h52

O argentino Alan Pauls confessou que tornou-se escritor para tentar aliviar uma patologia que o afligia quando era apenas uma criança - mentir compulsivamente, e mentir mal. "Descobri que a única maneira de mentir sem a possibilidade de ser castigado era escrever", afirmou, em entrevista concedida ao estadao.com.br. O resultado dessa conversão de falsidade em arte resultou na obra O Passado, lançado terça-feira, 10, na Livraria Cultura, em São Paulo, após participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na semana passada.O autor classifica seu livro não como uma história de amor, mas uma "história de pós-amor". A trajetória de Rímini, que perde a mulher com quem viveu uma intensa paixão durante 12 anos, transforma o "calvário feminino em seu privilégio e sua condenação", afirma Pauls. A obra, idealizada sob o título "A Mulher Zumbi", fala sobre um amor que morre e as pessoas que não conseguem suportar a perda, vivendo um "amor zumbi", termo que para o escritor, também poderia ser facilmente o nome de sua novela.Rímini (clara referência à cidade-natal de Federico Fellini), é um tradutor que tenta firmar relações após a morte de sua amada Sofia. "O casal perfeito acaba nas primeiras 50 páginas. O que acontece nas outras é delírio sobre as ruínas", explica o argentino. Seu ´fantasma´ volta para atormentar o protagonista, que se afoga em vícios para suportar esta dor - vício em cocaína, em suas traduções, em masturbação e em Sofia."O Passado é um romance tragicômico, une êxtase e espanto (...) O sublime tem um pé na tragédia e outro na comédia". Assim Pauls define o projeto no qual se debruçou por cinco anos e, em meio a uma longa pausa, levou dez anos para concluir. Para ele, O Passado é apostar tudo em um livro, por não saber se havia escrito uma boa obra, ou ido para o mais ridículo dos abismos. "Foi um livro suicida".Em novembro, o romancista deve publicar uma nova novela, dessa vez "de volta ao formato humano e racional". Revelando-se preguiçoso, disse que reler as 600 páginas da premiada obra foi um martírio. Castigo esse muito bem aproveitado pelo cineasta Hector Babenco, que adaptou O Passado para o cinema e rodou o longa com Gael García Bernal no papel principal.Babenco disse ao estadao.com.br que o livro havia chamado muito sua atenção, e após decidir investigá-lo, conseguiu permissão de Pauls para compor um roteiro, processo que demorou cerca de um ano e meio. "Pauls me deu liberdade total (para criar como bem quisesse no filme)", diz o diretor do longa, que conta com participação especial de Paulo Autran. Já Gael García foi a opção porque o filme, que deixou de ser rodado no Brasil por se encaixar mais no ambiente argentino, precisava de um grande ator de língua espanhola, necessariamente com menos de 30 anos, explica o cineasta.Pauls existe?Boatos surgiram na Espanha afirmando que Alan Pauls não existia. Diziam que era apenas um personagem inventado por três outros autores: Roberto Bolaño, Enrique Vilas-Matas e Rodrigo Fresán.A farsa só foi desvendada no país quando Pauls recebeu o prêmio Herralde em 2003, concedido anualmente pela Editora Anagrama, na Espanha, a um romance inédito em castelhano, apareceu para recebê-lo. O próprio Fresán explicou aquilo que chamou de "broma" (piada em espanhol) ao estadao.com.br."Eu, Enrique Vila Matas e Roberto Bolaño falávamos muito sobre Alan Pauls e citávamos passagens de sua obra. Mas não havia livros de Alan Pauls na Espanha e os espanhóis passaram a dizer que era uma invenção nossa. Foi uma brincadeira. Ele ganhou o prêmio Herralde e todos viram que ele existe", afirmou o também escritor argentino Fresán.Já Pauls acha bastante engraçada a história. "Eu gostei muito de ser uma farsa. Eu era irreal. Converter-me em uma espécie de mito foi uma solução muito boa para a questão do escritor que desaparece quando escreve. Lamentavelmente me deram o prêmio Herralde e tive que ir e dizer ´sim, existo´".(Colaborou Daniel Abrão)

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