Ser atual, ser paradoxal

O filósofo italiano Giorgio Agamben nos legou incisiva e bela reflexão sobre a noção de contemporaneidade. Ele parte de um paradoxo, herdado das Considerações Intempestivas, de Nietzsche: o contemporâneo é o inatual, ou seja, é aquilo que se situa fora do espaço e do tempo entregues ao ser humano pelas circunstâncias.

Silviano Santiago, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2013 | 22h00

O ser humano não se torna contemporâneo por coincidir com seu tempo, ou por reproduzir-se a si como imitação ou cópia da situação que vive. É contemporâneo ao operar um deslocamento espacial entre ele e a atualidade. O contemporâneo se insere a si no espaço deslocado e no tempo anacrônico a fim de ganhar competência para melhor apreender - paradoxalmente, repita-se - sua época. No espaço/tempo intervalar é que, para qualificar e avaliar a contemporaneidade, se lhe propõe recorrer ao saber profano (a história) e, simultaneamente, ao saber sagrado (a religião).

Alerta Agamben: não se instaura a não coincidência entre atualidade e situação para que o homem viva em outra cidade e outro século. Seja um nostálgico, a sentir-se mais em casa na Atenas de Péricles, ou na Paris de Robespierre. O ser humano inteligente sabe que não pode fugir ao seu tempo.

O raciocínio de Agamben prossegue sob a forma de duas alusões inesperadas. Elas reforçam e levam adiante a premissa exposta de modo paradoxal na abertura.

A moda é a primeira alusão. De caráter profano, a referência a ela esclarece a pertinência da fissura operada no tempo histórico pela intervenção da inatualidade. A lógica exemplar da moda oferece o mirante para se apreciar o modo como o contemporâneo está sempre adiantado ou atrasado. A roupa da moda oscila entre o momento que ainda não chegou e aquele que já não é mais. É reconhecida por todos como algo que ainda não é, que será talvez, ou que já foi.

"Neste instante estou na moda" - a afirmativa só faz sentido se dita por Gisele Bündchen ao desfilar na passarela. Dita por ela na rua, ao lado do marido, a frase não é paradoxal. É apenas contraditória ou fanfarrona. O tempo próprio à moda - e o próprio à contemporaneidade - se bifurca em um "ainda não" (futuro) e um "não mais" (passado). Ancora-se no espaço entre os dois.

A fissura é, pois, o ‘‘entrelugar’’ no contemporâneo onde se relacionam as frações do tempo expostas por ela de modo inexorável. Oferecido pela lógica da moda, o intervalo cria a heterogeneidade na dimensão temporal e serve para que o atual mantenha com o passado e com o futuro uma relação particular, dita por Agamben como sendo a que é proposta pela "citação". Ali, no entrelugar, o contemporâneo pode reevocar e revitalizar, pode reeditorar tudo aquilo que tinha sido descartado por ter sido declarado morto.

Enunciado concretamente pela voz de Gisele ao desfilar pela passarela, o lugar da fissura não é o vazio. É o lugar preenchido por compromissos entre as frações do tempo e entre as sucessivas gerações.

O contemporâneo é aquele que, ao fracionar o tempo para nele interpolar citações, está à altura de transformá-lo e de colocá-lo em relação com outros tempos, de nele ler de modo inédito a história da civilização.

A segunda alusão vem da palavra de S. Paulo sobre a contemporaneidade do Messias. De caráter sagrado, ela traz à baila o "tempo-de-agora", anunciado pelo apóstolo ao se referir ao advento do Cristo para presidir o Juízo Final no fim dos tempos. A referência ajuda Agamben a substantivar o sentido religioso do adjetivo "intervalar" quando aposto paradoxalmente à contemporaneidade. A palavra que nomeia o evento bíblico - "parusia", em grego - significa "presença". Esta religa o tempo fracionado. A "parusia" tem a capacidade singular de colocar em relação consigo todos os instantes do passado, de transformar todo momento ou qualquer episódio da história bíblica numa profecia, ou numa prefiguração do presente.

O poeta russo Osip Mandel’stam fornece a Agamben o andaime para um segundo paradoxo, para uma segunda definição de contemporaneidade. Em poema, Osip propõe a correlação entre o tempo da vida de um indivíduo, o de suas vértebras quebradas pelo presente, e o tempo histórico coletivo, o de uma fera cujo dorso está fraturado pela época. O poema diz que, ao soldar com o próprio sangue o dorso fraturado do século/fera, o homem paga a sua contemporaneidade com a vida. Ao manter o olhar fixo no rosto atormentado pela dor do século/fera, o contemporâneo não busca as luzes, mas o escuro, paradoxalmente.

Copio: "Todos os tempos são obscuros para quem deles experimenta a contemporaneidade. Contemporâneo é, precisamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente".

Perceber o escuro do presente - alerta Agamben com o auxílio dos neurofisiologistas - não é manifestação de inércia ou de passividade por parte do sujeito. Implica a atividade de neutralizar as luzes que provêm da época para enxergar suas trevas, de que são inseparáveis. Contemporâneo é quem recebe no rosto o facho de trevas que provém do seu tempo.

A metáfora da escuridão do tempo presente é explicada pelo recurso à compreensão da escuridão das constelações. As galáxias mais remotas se distanciam de nós a uma velocidade tão absurda que sua luz não consegue nos alcançar. Aquilo que percebemos como o escuro do céu é essa luz a viajar velocíssima até nós sem nunca chegar a nos alcançar, porque as galáxias das quais provém se distanciam a uma velocidade superior à da luz.

O filósofo comprova sua reflexão com as obras de Michel Foucault e de Walter Benjamin. Aquele afirma que suas perquirições históricas sobre o passado, suas arqueologias, são apenas a sombra trazida pela sua interrogação teórica sobre o presente. Este, que o indicador histórico contido nas imagens do passado só alcançará sua plena legibilidade em determinado momento da sua história.

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