Separados sob o mesmo teto

Mika Kaurismäki investe na comédia para discutir o divórcio na Finlândia em O Ciúme Mora ao Lado

, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2010 | 00h00

Música para cortar os pulsos - não, não se trata de uma crítica à peça (ótima, segundo o especialista Dib Carneiro Neto) que acaba de deixar o cartaz em São Paulo, com a promessa de voltar no ano que vem. "Adeus, vou pra não voltar/ E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho/ Tão sozinho, amor..." A música para despedaçar corações é Vou Pra Não Voltar, de Edu Lobo, versos de Torquato Neto. Integra a trilha de O Ciúme Mora ao Lado, comédia finlandesa que estreou na sexta-feira, depois de passar no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo.

Música brasileira em filme da Finlândia? E uma comédia, ainda por cima? Em tempos de multiculturalismo, isso não surpreende mais, mas só experimentará estranhamento o espectador que não conhece o diretor Mika Kaurismäki. Irmão de Aki Kaurismaki, Mika vive há quase 20 anos no País. Fala português fluente e é apaixonado pela música brasileira, à qual dedicou dois documentários, Moro no Brasil e Brasileirinho. Não surpreende, portanto, que ele tenha recorrido a Torquato Neto, e a Edu Lobo, em seu novo filme.

Mais surpreendente talvez seja o fato de que, depois de tanto tempo no Brasil, Mika Kaurismäki tenha sentido necessidade de retornar à Finlândia - para retomar suas raízes? Ele fez dois filmes, em 2008 e 2009 - Três Homens e Uma Noite Fria e O Ciúme Mora ao Lado. O segundo, lançado no ano passado, virou o maior sucesso de público da história do país. Talvez ajude um pouco, para situar o espectador, acrescentar que a Finlândia é considerado o país europeu com as maior taxa de divórcios. É disso que trata o filme.

O Ciúme Mora ao Lado - o título busca uma aproximação com a comédia clássica de Billy Wilder, O Pecado Mora ao Lado, com Marilyn Monroe e Tom Ewell, mas não tem muito a ver. Mostra casal que se separa, um pouco por dificuldades financeiros, mas também porque querem provar que são civilizados, marido e mulher - ex-marido e ex-mulher - resolvem continuar vivendo sob o mesmo teto, até que a casa seja vendida. Compartilhar a propriedade revela-se uma experiência difícil e até penosa para Juhani e Tuula, os personagens interpretados por Hannu Pekka Bjorkman e Elina Knihtila. Ele é terapeuta familiar, ela é palestrante profissional. Agem com discrição, até que, numa noite, Juhani chega da balada com uma acompanhante. Tuula reage trazendo a própria conquista na noite seguinte, para uma retaliação. A indiferença que ambos pensavam sentir um pelo outro dá lugar a uma disputa árdua, Juhani e Tuula agora competem e querem se agredir.

Ele estabelece na casa uma prostituta, disfarçada de namorada - e é bom acrescentar que o irmão do herói é gigolô. A garota tem algum envolvimento com dinheiro do crime. Entra uma família de mafiosos em cena. Tudo isso dá ao filme uma dimensão de paródia e Mika, que escreveu detalhadamente todas as cenas e diálogos, dando pouco espaço à improvisação - ao contrário de Três Homens e Uma Noite Fria -, trafega entre gêneros e estilos. Obviamente, trata-se de um cinéfilo que admira o cinema japonês, o russo, as comédias italianas. Pode ser que o fato de morar no Brasil não tenha nada com isso, mas Mika percorre um amplo espectro que vai da sofisticação à pornochanchada. A dupla de protagonistas é bem desenhada, mas os demais personagens são vistos de um ângulo algo caricatural. Digamos que o resultado é um certo desequilíbrio narrativo, mas é justamente o que torna O Ciúme divertido.

Há informações de que o diretor rodou dois finais - um sombrio e outro mais ligeiro. Para saber qual ele escolheu você terá de assistir ao filme e não será tarefa difícil. Uma pista é que a trilha termina numa espécie de forró finlandês e isso agrega ao clima de nonsense que termina caracterizando - e dando sentido a O Ciúme Mora ao Lado. Afinal, um terapeuta familiar que não consegue salvar seu casamento e uma família de mafiosos mais "família" do que mafiosa são ingredientes inusitados, mesmo que Mika Kaurismäki, trabalhando com estereótipos, esteja querendo justamente fazer humor com (e até subverter) o déjà vu.

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