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Separações & recaídas

No front conjugal, há tudo: de separação que não dá certo a divórcio via orelhão

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

06 Novembro 2018 | 02h00

Você arriscaria aposta no sucesso de um casamento antigo que todos acham perfeito? E numa separação decidida “na boa”?

1. Implosão conjugal

Era um casal antigo, do tempo em que os casamentos duravam mais que os móveis da Tok & Stok. Se brigavam, era numa intimidade à prova de berreiro e louça estilhaçada. Para a vizinhança, que os via desfiar as tardes na varanda, aposentadíssimos, ela no tricô, ele atracado a uma leitura, eram a própria felicidade conjugal. 

Até o dia em que ele, com dores no peito, ouviu do cardiologista uma sentença inapelável. 

– Quanto tempo? – conseguiu tartamudear. 

– Se o senhor levar uma vida tranquila, sem aborrecimentos... 

Sem aborrecimentos? Ainda hesitou, à saída do prédio, olhos cravados em lugar nenhum – e então, decidido, varou o caudal da multidão de fim de tarde, disputou um orelhão, ligou para casa e comunicou à mulher que não o esperasse. A que hora voltaria? – Nunca! Nunca! – rosnou ele. Mandaria buscar suas coisas, todas, está me entendendo? E, em meio ao alarido do rush, aproveitou para desaguar – sua isso! sua aquilo! – rancores represados nos recônditos de uma união que já cumprira uma fartura de pedras e metais, ouro inclusive, e que se desdobrara em filhos, netos, dali a pouco, bisnetos.

Do outro lado do fio, desabada na cadeira, a esposa chegou a pensar que o companheiro, sempre tão atencioso, houvesse endoidado – até se dar conta, horrorizada, de que estava protagonizando o que talvez tenha sido o primeiro divórcio por orelhão. 

Para encurtar: ele disse que não voltava, e não voltou mesmo. Foi morar no prédio ao lado, sob as asas maternais de uma das filhas. A área de serviço dava para os fundos do antigo lar, e era ali que se postava, hierático, o barrigão senhorial forçando os suspensórios, a encarar por trás das lentes garrafais a ex-mulher – que, a poucos metros de distância, com seu irremediável penhoar de florzinha, também o encarava. Sempre em silêncio, ambos, pois nunca mais trocaram palavra, nem que fosse para despejar desaforos represados. Mas era o tempo esfriar e ela telefonar para a filha: 

– Vê se o teu pai está bem agasalhado. Bota um cachecol. Meia de lã. Joga um casaquinho nas costas. 

O que não impediu que, ano e pouco mais tarde, com agasalho e tudo, uma pneumonia, e não as coronárias, o levasse. Mas já faz tempo. Depois disso, os móveis da Tok & Stok melhoraram, e os casamentos, pioraram.

2. Numa boa

Como tantas uniões, tem separação que não dá certo – e foi o que se passou com aqueles dois. 

Separaram-se “numa boa”, tão boa que a decisão não tardou a fazer água. Quem mandou entrarem num esquema de se verem para um cineminha apenas, “cineminha apenas” que a certa altura passou a incluir uma esticada para “um chopinho apenas”? 

Dali para o motel foi um pulo e, na cama redonda, entregaram-se finalmente à desenvolta lambança de que, na moldura quadrada de sua vida conjugal, jamais tinham sido capazes. Chegaram mesmo, se me permitem descer a tais detalhes, a fazer uso, ali, daquela coisa – poltrona? cadeira? – de metal laqueado, com jeito de instrumento de tortura mas concebida com objetivo oposto, sabe Deus por quem, para, como numa academia de ginástica, diversificar as posições e, de quebra, revelar talentos circenses ao sabor do mais descabelado Kama Sutra. Trataram-se, enfim, com guloseimas eróticas que, na vigência do casamento, só haviam saboreado em suas respectivas puladas de cerca.

Quem mandou? Daí a pouco estavam os dois na via sacra das agências imobiliárias, atrás de um apê para alugar, ao mesmo tempo em que iam recompondo a tralha doméstica que haviam dispersando entre os amigos. 

No fogaréu novamente aceso da paixão, esqueceram-se por completo dos trâmites do divórcio, e foi com genuíno espanto que um dia receberam, num de seus separódromos (chamemos assim a esses flats aonde vão dar tantos náufragos de separações), uma notificação para comparecerem perante o juiz.

Não sabiam que bastava ignorar o papelucho: tementes à lei e à polícia, acharam que estavam obrigados a ir, e assim fizeram, solenizados, num belo começo de tarde. Não tão solenizados que não pudessem antes almoçar nas imediações do Fórum, com todas as caipirinhas a que têm direito os apaixonados, de forma que estavam alegrinhos quando se viram frente ao juiz, o qual, em inequívoco piloto automático, enveredou por uma discurseira edificante, qual bula ao advertir para indesejáveis efeitos colaterais de um medicamento. O amor. A sagrada instituição do casamento. Os filhos, abençoados frutos dessa união. A construção do amor em meio às intempéries da infidelidade e à ferrugem do cotidiano. 

Nesse ponto do recitativo, o divorciando – criemos o termo, se já não existe no jargão jurídico – achou que era hora de manifestar-se:

– Taí, o senhor me convenceu. 

– Perdão?

– Desisti de separar.

– Eu também! – ecoou a divorcianda, agarrando-se ao braço do agora remarido. 

Como nos velhos romances, o Meritíssimo franziu o sobrolho: aquilo não estava no programa.

– Como assim? – e, com a severidade da toga, brandiu os cincos dedos da mão peluda: – Os senhores pensem bem no que estão fazendo! 

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