Sentindo-se em casa em território estranho

A Pilobolus mostra sua poesia acrobática em novo trabalho

Alastair Macaulay, The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2010 | 00h00

O gramado central do Dartmouth College nesta cidade, cercado por belos edifícios e pináculos antigos de tijolo vermelho, forma um arquetípico câmpus universitário da Nova Inglaterra. Um desses edifícios, o Hopkins Center for the Arts, de 1962, sem quebrar o tom idílico, ainda parece relativamente moderno como arquitetura e isso continua no seu interior. O Hop tornou-se um dos líderes na encomenda de trabalhos de dança moderna. Nos três últimos anos, houve estreias mundiais de Merce Cunningham, Paul Taylor, e outros.

Para nenhuma outra companhia, porém, uma temporada em Dartmouth é realmente uma volta para casa como para a Pilobolus. Há 39 anos, quando o corpo discente era totalmente masculino, essa cia. surgiu de um curso de dança moderna ministrado por Alison Chase, e o Hopkins Center foi uma das razões para os jovens que formaram a Pilobolus Dance Theater escolherem estudar aqui em primeiro lugar.

As imagens expressivas da poesia acrobática da Pilobolus - alternadamente biológicas, burlescas e edênicas - fizeram dela um novo gênero. A biblioteca da faculdade abriga o extenso arquivo da companhia - que inclui filmes, fotografias, notas e mais -, que também revela a rapidez com que a sua arrecadação de bilheteria cresceu: nos anos 1970 apenas, de US$ 300 (por performances em outra universidade da Nova Inglaterra) a US$ 25 mil (por uma temporada no Sadler"s Well em Londres).

A biblioteca também está exibindo uma pequena exposição para homenagear Jonathan Wolken, um dos dançarinos-coreógrafos fundadores e diretores artísticos de longa data da companhia, cuja morte em junho pôs em xeque uma questão: a Pilobolus conseguirá sobreviver a seus criadores? A cia. dedicou apresentações de um fim de semana no Hop à memória de Wolken. Mas o principal evento do programa foi um novo trabalho, Hapless Hooligan in "Still Moving", criado pelo cartunista Art Spiegelman e o coreógrafo Michael Tracy, outro dos diretores artísticos de longa data da Pilobolus, em colaboração com os dançarinos do grupo.

É obviamente uma novidade. Em nenhuma outra parte eu vi esse tipo de superposição estonteante de cartum, filme, teatro de silhueta e dança viva. E, no entanto, ele também utiliza, e rejuvenesce, aspectos da Pilobolus que estão lá desde o começo: a lógica de sonho, o toque burlesco, a sensação de liberação física que só às vezes é altamente sexual, e o desafio à categorização. A Pilobolus sobrevive nesta peça e evolui.

Chaplin. Hapless Hooligan in "Still Moving" inclui também a morte de sua personagem central. Hapless (ou Hap) remete à velha personagem americana de cartum, Happy Hooligan, mas também ao papel que Charles Chaplin muitas vezes interpretou e ao Petruchka do balé. Ele é um inocente errante, o Camaradinha que ama mas cuja garota é perseguida também por um homem duas vezes o seu tamanho e propenso à agressão. Mas nós também vemos Hap no despertar da consciência e, como Orfeu, no reino da morte. É uma história fabulosamente maluca em tom caricatural.

Spiegelman poderia ter contado a história toda em termos de cartum. Isso, porém, teria sido uma peça menor e mais simples. Aqui, a vida de Hap é continuamente apresentada com um show em performance, com múltiplas camadas de realidade. A história é contada como um cartum e encenada pelos dançarinos como silhuetas. Vemos os bailarinos em 3-D em segundo plano e enxertos de um gênero em outro. Silhuetas e cartuns aparecem no mesmo quadro e interagem.

Em certo ponto, dançarinos vivos parecem estar lançando sombras em movimento na tela do fundo - até se evidenciar que essas silhuetas na verdade têm vida própria. Numa grande cena, a tela sobe para revelar luzes, aparelhos e personagens. O efeito é tão revelador no contexto que é como se estivessem nos dando um vislumbre fugidio do funcionamento interno do universo.

O movimento e a dança levam a história a outros níveis, com a heroína subindo sem esforço para ficar de pé sobre os ombros do homem, num efeito de cartum. Quando ela e Hap morrem, há esqueletos e um diabo dançantes e outras camadas de realidade. É tudo movimento leve, seco, rápido.

Parte do prazer da produção é a música, que é, como tantas trilhas musicais da Pilobolus, uma colagem. Se estendendo de Erik Satie a Yma Sumac, ela mantém a comédia. Minhas únicas reservas são a um pequenino momento em que Spiegelman parece ser autorreferente e um final sóbrio quando poderia ser de transcendência teatral.

Na Hop, Hap foi seguido por Gnomen, coreografado em 1997 por Wolken e Robby Barnett, outro pai fundador e diretor artístico do grupo. É um belo exemplo de acrobacia apresentada como poesia "piloboliana" transformadora, e um soberbo encerramento do programa.

Os dois seguiram o intervalo e vieram como um grande alívio após os três primeiros itens, Redline (2009), Rushes (2007) e Walkyndon (1971): três obras de arte distintas, mas parecendo fracas.

Transcendência. Embora a Pilobolus sempre tenha sido popular, teve muitos adversários - "É tão imaturo!" observou certa vez um amigo - e essas três palavras me fizeram ver por quê. Mas Hapless Hooligan transcende esse aspecto por ser elaboradamente arrebatador. E Gnomen vai direto ao coração do imaginário da Pilobolus, que se apresenta de 12 de julho a 7 de agosto no Joyce Theater, em Nova York. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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