Lorey Sebastian/Divulgação
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Sentimentos Áridos

A nova versão de Bravura Indômita, que abriu ontem o Festival de Berlim, apresenta uma direção mais enxuta e menos irônica dos irmãos Coen

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

Ethan Coen é quem responde à pergunta que não quer calar: o irmão Joel e ele viram o western de Henry Hathaway, Bravura Indômita, que deu o Oscar de melhor ator para o lendário John Wayne, há 40 anos? "Vimos quando estreou. Éramos crianças. Não vou formular nenhum juízo de valor, porque não tenho. E não foi o filme antigo que nos deu vontade de fazer um novo Bravura Indômita. Foi o livro de Charles Portis. Nossa bússola foi o livro, não o filme."

Os Coens estão em Berlim. Vieram mostrar Bravura Indômita na abertura do 61.º festival. A Berlinale começou ontem. Bravura Indômita, por coincidência, estreia hoje nos cinemas brasileiras. Antes do filme, a coletiva do júri, presidido por Isabella Rossellini. A primeira pergunta - como ela se sente, sendo filha de dois ícones do cinema, Roberto Rossellini e Ingrid Bergman? "Me sinto privilegiada, porque mais que grandes artistas, eles foram pessoas do bem. E, ao mesmo tempo, sinto certa tristeza. Perdi meus pais muito cedo. Eles não me viram construir a carreira, não conheceram meus filhos. Mas seu legado foi importante. Me ensinaram a lutar pelas coisas em que acredito e a fazer meu caminho com ética."

A outra pergunta - durante todo o tempo da coletiva, e durante toda duração do festival, até dia 20, uma cadeira permanecerá vaga. É a do jurado Jafar Panahi, preso no Irã. A senhora presidente se explica: "Ainda não desistimos de poder contar com Jafar para nossas deliberações. Naturalmente sua prisão, nas circunstâncias em que foi feito o julgamento, nos afeta e atinge a comunidade cinematográfica mundial. Não existe arte sem liberdade, ou sem luta pela liberdade. Jafar ama seu país sua cultura. It"s a shame, é uma vergonha, que seja considerado um detrator daquilo em que acredita."

De volta aos irmãos Coen, e ao Bravura Indômita, o filme já é o maior sucesso da carreira de ambos. Nos EUA, a bilheteria de Bravura Indômita superou toda expectativa e o filme ainda conseguiu dez indicações para o Oscar. Um bom começo de conversa sobre o filme que repõe na tela a paisagem, mas não necessariamente os códigos do western.

Como vocês explicam o sucesso de Bravura Indômita?

Não explicamos. Se houvesse uma explicação, ou se nós soubéssemos qual é, seríamos reis de Hollywood. Quando iniciamos um projeto, nosso desejo é sempre chegar ao público. Não fazemos filmes para nós. No caso de Bravura Indômita, o que nos moveu foi o livro de Charles Portis. A história é muito forte, centrada em três personagens - o velho xerife, o novo delegado e a garota que quer vingar os pais - e eles nos pareceram suficientemente atrativos para merecer um filme. Some-se a isso a prosa muito particular de Portis e você já tem um monte de motivos para termos feito o filme.

Ser um western explica alguma coisa? Seria um retorno do gênero, dez anos após Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood?

O western é considerado morto, mas é um gênero que sempre volta para assombrar a cultura de Hollywood. Mas não definiria Bravura Indômita como western. Ele se passa naquela paisagem, mas não segue os códigos do gênero. Acho que nenhum filme nosso segue fielmente os códigos de nenhum gênero.

Vocês têm razão. Os homens, por exemplo, são infantis no filme e a garota de 14 anos é mais madura que eles. Concordam?

Claro. Foi, de resto, uma das coisas que nos atraíram. A cena da disputa, quando Jeff (Bridges) e Matt (Damon) disparam para ver quem é melhor com a pistola é, por si só, emblemática de alguma coisa. Existe uma cena similar em Rio Vermelho, de Howard Hawks, há 60 anos, e era carregada de sugestões psicanalíticas. O que nos interessa, aqui, é o humor. A garota é mais madura do que os homens. Ponto.

O fato de o filme antigo ser tão famoso foi motivo de inibição? Vocês não temiam comparação entre Bridges e John Wayne?

Jeff nunca se preocupou com isso nem estabeleceu os fundamentos do personagem batendo-se com o Wayne da lenda. O próprio herói do filme, o pistoleiro bêbado, decadente, não é o personagem emblemático de Wayne. É mais uma paródia, uma caricatura de si mesmo. Mas nunca pensamos no filme antigo. O livro nos motivou e não me surpreenderia se, dentro de 40 anos alguém usasse o livro para outro filme, que será fatalmente diferente do nosso. Portis não faz literatura de western, mas desenha muito bem seus personagens e cria personagens complexos. É o que nos interessa.

O filme encerra um comentário sobre o mundo atual? O livro é um embate entre o velho e o novo Oeste?

Nenhum comentário que não nossa fascinação pela história e personagens. Queríamos contar a história da vingança de uma garota de 14 anos e que jovens da idade dela pudessem ver, mas não fizemos o filme para nossos filhos, por exemplo, embora eles o tenham visto, e gostado. O velho e o novo Oeste? Há algo disso quando a garota, no fim do livro, se lembra do passado como um show longínquo, mas não creio que Charles (Portis) tenha pensado nesses termos. As leituras são livres e nada o impede de pensar assim.

BRAVURA INDÔMITA

Nome original: True Grit, Direção: Ethan e Joel Coen. Gênero: Drama (EUA/2010, 110 min.). Censura: 16 anos.

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