SENTIMENTO DE ETERNIDADE

É um homem sem sexo, sem cor e sem idade que está no alvo de cinco refletores disparados ao mesmo tempo. Assim que a casa anuncia seu nome, a plateia leva um susto e reage com euforia à aparição repentina de sua imagem estática, sentada em um trono espelhado no centro do palco. Um ser de turbante e olhos pintados, calça justa e peito à mostra, desafiador e selvagem. Sua arena tem nas laterais sete músicos de personalidades fortes que criam desde a entrada arranjos vigorosos de volumes apoteóticos e ascendências árabes, africanas e latinas, sambísticas e roqueiras. A fera que Ney Matogrosso fez descansar na elegância dos ternos e dos violões de Beijo Bandido, sua turnê mais recente, foi solta neste fim de semana, durante a passagem por São Paulo de Atento aos Sinais, seu novo show. Ou algo que vai um pouco além disso.

O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h12

Ney inverteu o processo: em vez de lançar um disco para depois cantá-lo, levou as 19 canções que garimpou com a seda dos ouvidos para, antes de gravá-las, testá-las em cena. O resultado é uma seção de surpresas em série que exige almas desarmadas. Quase tudo ali é novo. Rua da Passagem, de Lenine e Arnaldo Antunes, faz a abertura enérgica. Tupi Fusão, densa e experimental, é de Vitor Pirralho. Freguês da Meia Noite, crônica e cinematográfica, de Criolo. Samba do Blackberry, divertida e ágil, do grupo Tono. Dani Black, de quem Ney aproveitou as introspecções da bela Oração, estava sentado em uma das primeiras mesas, de frente para a mãe Tetê Espíndola. A cena de um novato prestes a ver sua música na voz de Ney era sensível. Quando começou, seus olhos se concentravam no palco ou buscavam as reações das mesas ao lado. Ao final, a família sentia seu time marcar um gol em decisão de campeonato. O bis tem a única ponta de saudosismo com Amor, dos Secos e Molhados, e uma levitação, um sonho chamado Astronauta Lírico, de Vitor Ramil.

A nova fase de Ney, que ainda deve melhorar depois que o show for amaciado na estrada, potencializa os traços que o fizeram grande, quando ele assombrou a música brasileira à frente dos Secos e Molhados. Sem sexo, seduz homens e mulheres com a mesma intensidade. Homens héteros e gays; mulheres héteros e gays. Seu rebolar que pode anteceder um oitentismo tresloucado de Lobão, em Vida Louca Vida, ou um samba profundo de Paulinho da Viola, como Roendo as Unhas, não entra no registro dos deboches, mas da reverência. Um terreno que poucos artistas ousam pisar. Quando Sidney Magal rebola, provoca o riso. Quando Rick Martin rebola, a sedução. Os quadris em fúria de Ney, com sua genitália saliente, chegam como parte, não como todo. É a moldura de uma obra que seria vazia se não existisse uma interpretação para preenchê-la. Sem cor, Ney se esparrama. Das caravanas de senhores que chegam em ônibus de bairros afastados às madames malhadas dos Jardins, dos casais gays modernos aos executivos que acabaram de deixar seus escritórios, ele pede que todos o beijem loucamente. Sem idade, dribla seus 71 anos e faz acreditar que a eternidade existe, ao menos, por uma hora e quarenta minutos.

Crítica: Julio Maria

JJJJ ÓTIMO

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