Senta, que lá vem história

Festival ComKids Prix Jeneusse Iberoameriacano chega a São Paulo com 86 produções e põe em xeque o conteúdo audiovisual infantil de qualidade

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2013 | 02h07

O que faz uma simples tampa de panela virar objeto de um estudo que envolveu oito profissionais de seis países em diferentes continentes? Não foi o design nem o material, mas, sim, o efeito que ela consegue ao aparecer em um vídeo de cerca de 5 minutos de duração, exibido para 300 crianças do Brasil, Alemanha, Cuba, Turquia, Egito e Rússia. O caso é um dos que serão mostrados no 6.º Festival ComKids - Prix Jeneusse Iberoamericano, evento que discute, exibe e premia conteúdo infantil de qualidade, e começa amanhã, em São Paulo, e termina no domingo (leia ao lado).

Uma das palestrantes de destaque é a alemã Maya Götz, diretora da Fundação Prix Jeneusse e do Instituto Central Internacional para a Juventude e Televisão Educativa, responsável pelo estudo citado. Curiosa sobre o universo audiovisual infantil, ela quis saber como os pequenos reagem ao que assistem. Para isso, mostrou a um grupo de crianças entre 3 e 6 anos de diferentes classes sociais o curta O Menino, a Favela e as Tampas de Panela (1996), dirigido por Cao Hamburger e escrito por Anna Muylaert - a dupla responsável por Castelo Rá Tim Bum.

Como diz o título, o filme mostra uma criança que pega a tampa da panela da mãe e passeia pela favela onde mora, dribla alguns vizinhos que o seguem, joga um pouco de futebol, passa por um grupo de samba e volta para os braços de sua genitora. O resultado diz que os espectadores mais pobres entenderam melhor a situação, enquanto os mais abastados acharam que o personagem havia roubado um objeto de casa e que foi abraçado pela mãe por ter feito um gol, não por causa dos laços afetivos ao retornar ao lar.

"O mais surpreendente foi o fato de algumas crianças não entenderem. Os adultos, pensam que isso vai funcionar para todos porque é muito claro e bem contado. Isso depende da experiência que eles têm. Não imaginava que haveria tanta diferença", confessa Maya, em conversa por telefone com o Estado antes de desembarcar em São Paulo.

Apesar de defender os programas educativos, a pesquisadora vê o lado positivo de desenhos com temática de luta, como Ben 10, animação exibida pelo Cartoon Network, em que o protagonista se transforma em monstros alienígenas. "Primeiro, é preciso entender por que eles assistem ao Ben 10, nitidamente um desenho de luta, em que eles enfrentam monstros para salvar o mundo. Eles sentem que têm uma função, que podem fazer algo para ajudar a salvar o mundo. É uma ideia de fortalecimento, o que é bom. O problema é se for o único programa disponível para eles", critica.

Para ela, atrações como a animação norte-americana têm elementos que podem despertar na criança uma percepção do ambiente em que vive. "Temos de dar a eles a perspectiva de que eles podem fazer algo para ajudar. Como dar a eles fantasia de que podem mudar o País, fazer algo importante na vida deles e na sociedade?"

Criador do Peixonauta ao lado de Célia Catunda, Kiko Mistrorigo acredita que sua animação, vendida para 73 países, tem uma função além de entreter. "Ela deixa a criança perceber que faz parte do mundo, que tem um papel na escola, naquele mundo dela, desde coisas banais que o colégio propõe, como reciclagem, até as mais complexas, como comportamento e a aceitação das diferenças", analisa.

Na primeira temporada do Peixonauta - coproduzido e exibido pelo Discovery Kids -, em que os personagens fazem parte de uma organização secreta e descobrem mistérios, o foco era o meio ambiente. Agora, a turma aborda temas como bullying e inclusão social. "Temos episódios sobre inveja, ciúme, sobre como se sentir aceito e ser popular. Colocamos um personagem cadeirante e um macaco que sofre por causa dos outros mais fortes."

Para Kiko, tratar de comportamento dá mais possibilidades de roteiro dos programas. "É mais interessante, a história fica mais complexa. O assunto do meio ambiente se esgota", avalia o artista, que ainda não produziu capítulos sobre discriminação de cor e orientação sexual. "A gente ainda entrou na questão da homofobia, pois é difícil falar. E eles não têm preconceito. A gente (adultos) é que cria."

Maya Götz defende que é preciso controlar o que os pequenos veem. "As crianças estão crescendo em um ambiente midiático, mexem em celulares, iPads. Elas têm mais de uma TV em casa. É preciso aprender a desligar o aparelho e questionar quais programas eles querem e devem assistir. A família deve conversar. As crianças devem ver a televisão como inspiração."

A alemã também lança a discussão sobre a publicidade em programas infantis, que tem afetado a televisão aberta nacional. Um dos casos recentes foi o merchandising com o elenco mirim da novela Carrossel (SBT), que levou o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) a tomar medidas para que as crianças não estivessem mais nas inserções.

"É preciso evitar anúncios entre os programas. Isso tem influência no que eles querem ter ou no que a família queria ter e é isso que a publicidade faz. De outro lado, é a maneira como a televisão se mantém. Se estão banindo anúncios de programas que mantêm os recursos, você os está forçando a sair da TV. As crianças são parte importante da sociedade e merecem ter televisão de qualidade. Não é só um investimento no futuro, é uma necessidade em países com falhas na educação", afirma Maya.

Beth Carmona, que já foi responsável pela programação infantil da TV Cultura e coordena o ComKids, concorda que as restrições estão reduzindo o dinheiro para a produção de novas atrações. "Para a TV aberta, não compensa mais investir em programas infantis. Mas será que conseguimos privar as crianças da publicidade?"

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