Senso de infinito das listas

Umberto Eco mostra como o esforço de tudo catalogar mudou ao longo dos séculos

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Listas são uma paixão do escritor e professor italiano Umberto Eco. Elas aparecem em quase todos seus livros. Assim, ao ser convidado em 2009 pelo Museu do Louvre para organizar uma série de conferências e exposições, Eco não pensou muito até sugerir seu tema preferido. E a pesquisa foi tão produtiva que ele utilizou o material para a escrita do livro A Vertigem das Listas, lançado aqui recentemente pela Record.

De Homero a Joyce, as listas sempre permearam a literatura e as artes visuais, que documentaram a progressão da forma como os homens organizavam seus pertences. O ponto de partida para Eco é o catálogo dos navios na Ilíada. E é justamente em Homero que o pesquisador italiano encontra o modelo descritivo que considera ideal, organizado e inspirado em critérios de fechamento harmônico e completo.

O melhor exemplo desse conceito está no escudo de Aquiles, de Hefaísto - o objeto abriga tal quantidade de cenas que, exceto por uma análise microscópica da ourivesaria, não é fácil observar a riqueza de detalhes. "A representação não se refere apenas ao espaço, mas também ao tempo, uma vez que todos esses acontecimentos se sucedem, como se o escudo fosse uma tela de cinema ou uma longa história em quadrinhos", escreve.

Eco observa que o escudo é a epifania da forma ao reconstituir as cenas com harmonia, o que resulta em uma hierarquia. Assim, como diversos quadros surgidos nos séculos seguintes, o escudo de Aquiles apresenta significados a partir de suas imagens e ainda sugere um "et cetera", como quem admite que os limites da moldura o obrigassem a calar um resto imenso.

Eis o conceito que Umberto Eco toma com base para enumerar as listas finitas e infinitas de artistas como Borges, Perec e Whitman, até chegar à "grande mãe de todas as listas", infinita por definição por estar em permanente desenvolvimento: a World Wide Web, "que, de todas as vertigens, nos promete a mais mística, aquela virtual".

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