Sensacional ''Sideman''

Claudio Roditi já tocou com deuses e o mundo. Agora, lança CD no País

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Aos 64 anos de idade - e 40 morando e atuando nos EUA -, o trompetista carioca Claudio Roditi atravessa as benesses da maturidade. É um instrumentista completo. Nas últimas décadas, tem sido um dos mais disputados "sidemen" dos grandes músicos de jazz americanos. Contabiliza participação extensiva com nomes estelares como os pianistas McCoy Tyner, alter ego de John Coltrane no mítico quarteto dos anos 60, e Horace Silver, com destaque para uma espetacular atuação no notável CD Hard Bop Grandpop, de 1996.

Alma gêmea do clarinetista cubano Paquito D"Rivera, atuou ainda com Jimmy Heath, Herbie Mann e incontáveis outros grandes músicos nestas quatro décadas nos EUA, iniciada como aluno em Berklee em 1970 e de 1976 em diante como músico profissional baseado em Nova York.

Este longo tempo de estrada acrescentou ao talento natural de Roditi uma enorme consistência musical. Ele raramente improvisa mecanicamente ou liga o piloto automático. Cada frase, cada ornamentação - tudo é pensado de modo a construir improvisos coerentes. Daí ser tão disputado pelas estrelas do jazz.

Anualmente, vem ao Brasil matar saudades do Rio de Janeiro. Quinze anos atrás, gravou um excelente disco com o quarteto Cama de Gato e convidados, intitulado Claudio, Rio and Friends. E agora a Biscoito Fino está lançando o CD Impressions, gravado na sua visita carioca de 2006, ao lado de grandes amigos, como o saxofonista francês Idriss Boudrioua, a esta altura um carioca da gema porque mora no Rio há 39 anos; o pianista Dario Galante, o contrabaixista Sérgio Barroso e o baterista Pascoal Meirelles.

Ambiguidades. Músicos como Roditi, mesmo bastante talentosos e vencedores, sofrem de uma síndrome perversa: são considerados estrangeiros em todo lugar. Nos EUA, por exemplo, ao lado de seu nome vem sempre a expressão "brazilian style"; e por aqui é visto fundamentalmente como trompetista de jazz. Outra sequela: como vem pouco ao Brasil, e fica só no Rio de Janeiro, porque está de férias, é praticamente desconhecido fora do circuito Mistura Fina-Modern Sound; e nos EUA, onde nos últimos cinco anos tenta emplacar uma carreira como líder de grupo, também não consegue apresentar-se em festivais e em outros espaços porque é conhecido apenas como sideman.

A estes fatores específicos do caso de Roditi junte-se um certo conservadorismo na prática da música instrumental carioca, ainda hoje dependente demais dos padrões bossa-novistas. A maior parte dos lançamentos da Delira Música e da Biscoito Fino - os dois selos mais ativos no Rio - consiste de música de qualidade, bem feita. Nada contra. Mas a moldura geral insiste em remeter às sonoridades dos gloriosos anos 60 de Ipanema. Gloriosos, mas finados.

Roditi não tem nada com isso. Mas, como deixou o País naquela era, até hoje também mistura de modo, digamos, convencionalmente bossa-novista, a música brasileira com o jazz estilo pós-bop. Não dá, claro, para negar a notável maestria deste CD-tributo a Coltrane, de quem o quinteto toca, além da faixa-título, Moment"s Notice, Naima e o carro-chefe do saxofonista, Giant Steps. Nem dá para esquecer o belo solo de Meirelles em The Monster and the Flower, composição de Roditi, que assina também Bossa do Brooklyn. Tudo está no devido lugar, tudo é previsível. Inclusive o mau momento, uma versão jazzisticamente quadradinha de A Rã - dá saudade das sutis performances do próprio João Donato. A julgar por este disco, é provável que o destino de Roditi seja mesmo de um sensacional sideman.

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