Sensação oceânica

O senso comum indica que os capítulos melancólicos da ascensão de um astro devem ser preteridos pela parte vibrante da história. O protagonista encontra um mundo solitário, vê seus camaradas se afastarem, é bajulado por pessoas que não o conhecem, e tem de deixar isso para depois, pois o doce sabor do triunfo e a necessidade de projetá-lo o esperam. Trata-se de uma narrativa dissecada milhares de vezes e abordada de todos os ângulos possíveis na linhagem do hip-hop, de Grandmaster Flash a Jay-Z. Isto, no entanto, tem deixado de ser regra. Desde que Drake estourou, no ano passado, com seu excelente Take Care, rimando uma alma turbulenta, vulnerável e confusa em meio a um mundo de carros de luxo e festas intermináveis, o jogo mudou. Abriu-se o caminho para um nicho reflexivo de r&b e rap, cuja mais nova estrela é Frank Ocean, autor dos desconcertantes hits de Channel Orange, discaço, forte concorrente a melhor do ano. Frank fez escola na trupe de rappers talentosos e semidelinquentes, Odd Future, e rapidamente se destacou com seu trabalho solo, de 2011, Nostalgia Ultra. Em Channel Orange, descreve com sensibilidade aguçada o que é ser jovem e famoso em 2012. Seus novos amigos são ricos, e vivem em um mundo que já foi comparado ao de David Hockney: palmeiras, uma piscina, Los Angeles. Sob refinada produção de soul, o lirismo do cantor exprime a sensação meio amarga de viver neste vendaval, talvez melhor descrito na preciosa Lost, em que afirmação pessoal e perda coexistem.

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h09

FRANK OCEAN

CHANNEL

ORANGE

Def Jam

Preço:

US$ 10 (iTunes)

EXCELENTE

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