Ed Viggiani/AE - 06/07/2007
Ed Viggiani/AE - 06/07/2007

Sensação de perda que mobiliza é tema de livro de Amós Oz

Personagens de 'Cenas da Vida na Aldeia' alimentam busca por algo desconhecido que as mantém vivas

Ubiratan Brasil, de O Estado de S.Paulo,

24 de outubro de 2009 | 14h11

Aldeia encravada nas montanhas de Menashé, em Israel, Tel Ilan abriga uma pequena população, formada em sua maioria por pessoas desesperançadas - apesar de uma confortável situação financeira, elas vivem insatisfeitas, sempre em busca de algo ou alguém que não tem um contorno ou perfil definidos. Mesmo assim, não desistem, pois o que as move é o empenho para atingir um objetivo. "O que elas procuram, na verdade, está escondido dentro delas mesmo", observa o escritor israelense Amós Oz, que criou o vilarejo de Tel Ilan como palco dos contos de Cenas da Vida na Aldeia (tradução de Paulo Geiger, 184 páginas, R$ 38), que a Companhia das Letras lança neste fim de semana.

 

Trata-se de um bem cuidado rascunho de algo tão complexo como a condição humana - ali, no povoado onde todos se conhecem, a médica solteirona alimenta um amor descontrolado pelo sobrinho, o casal que reúne amigos para cantorias tenta, em vão, ultrapassar a morte do filho suicida, um jovem imberbe não consegue controlar sua paixão pela bibliotecária, e o presidente do Conselho, homem admirado por todos, é abandonado pela mulher que simplesmente lhe deixa um bilhete, "Não se preocupe comigo".

 

São histórias circulares, que Oz começou a escrever em 2006 e terminou dois anos depois. E, como sempre faz questão de frisar, não são alegorias do conflito palestino, mas histórias profundamente humanas de ambiguidade e melancolia. É a obra que apenas um escritor maduro conseguiria conceber. "Se tivesse 20 anos, certamente eu não poderia escrever esses contos", conta o escritor, que completou 70 anos em maio. "A maturidade é decisiva."

 

O clima desértico inspira Oz - ele se mudou para Arad em 1986, a fim de facilitar o tratamento de asma de seu filho caçula, Daniel. Anos depois, o garoto retornou a Jerusalém mas o escritor decidiu ficar. Com um humor tão seco como o clima, Oz adaptou-se à amplidão desabitada, extraindo dali a fonte de sua inspiração ao habituar-se a acordar cedo para passeios matinais que lhe despertam as dúvidas que movem sua literatura: ao se posicionar na pele dos personagens, ele se questiona sobre o que faria se estivesse em seu lugar.

 

Tel Ilan, o espaço físico de Cenas da Vida na Aldeia, é uma local fictício, que se soma agora à farta tradição literária de cidades imaginárias, mas Amós Oz insiste em afirmar que não utiliza a ficção para retratar a atualidade - ainda que os habitantes de seus contos tragam vestígios de pessoas com quem convive e o espaço físico se assemelhe a diversos kibutz israelenses, o escritor é enfático: essas páginas contam apenas histórias.

 

Eterno candidato ao prêmio Nobel de Literatura, Oz prefere militar pela paz entre palestinos e israelenses em artigos ácidos, que não poupam nenhum governo. "O final do conflito depende de nossa atitude", afirma ele ao Estado, em um inglês manso, preciso, mas carregado de determinação.

 

Oz conversou com o Estado por telefone, desde Arad, no deserto de Neguev, onde vive e milita pela paz.

 

Seu primeiro livro, Where the Jackals Howl, de 1965, contém nove histórias que reproduzem a rotina de um kibutz. Cenas da Vida da Aldeia segue o mesmo estilo, fechando, o que parece um círculo.

Há muitos anos, eu ensaiava um retorno aos contos mas, quando surgia uma nova ideia, nascia na verdade um romance. Eu sentia uma necessidade de voltar ao conto pois, para mim, é como um ‘love affair’. Mas o curioso é que Cenas da Vida na Aldeia pode ser lido quase como um romance, uma vez que os personagens se cruzam ao longo das histórias. Tel Ilan é uma vila imaginária mas, como ela, há várias em Israel.

 

O livro apresenta personagens solitários, necessitados mas, em nenhum momento, desesperados.

Uma boa observação. Eles buscam por algo perdido, embora não saibam exatamente o que e onde perderam. Nem mesmo o porquê. Mesmo assim, continuam procurando sem nunca se desesperar: vasculham o sótão, abrem bolsas, cruzam as ruas e, mesmo quando parecem encontrar, não estão certos disso. Na verdade, eles buscam por algo escondido dentro deles mesmo.

 

Mas o senhor vê seu livro como uma obra triste?

Não. Há momentos depressivos, é verdade, mas são esporádicos. O fato de eles estarem na busca de algo, mesmo desconhecendo o que seja esse algo, revela uma intenção, o que não acontece quando a pessoa está desesperada.

 

Trata-se, portanto, de uma obra madura.

Sim, eu certamente não contaria essas histórias se tivesse 20 anos. Mas isso não significa que qualquer pessoa madura pudesse escrevê-las. Em outra entrevista, eu citei uma observação que gosto muito, feita por Jean-Paul Sartre quando questionado porque ele se dizia marxista em tudo que fazia, menos na literatura - segundo Sartre, o fato de Paul Valéry ser produto da burguesia francesa não significa que qualquer burguês pudesse escrever poemas como Valéry. Ou seja, que a idade tenha me ajudado a escrever o livro é fato, mas não explica tudo.

 

Uma curiosidade: em todas as histórias, sempre são mencionados cachorros, ainda que levemente. Por quê?

Cães, crianças, chacais, todos fazem parte da minha paisagem, da minha história pessoal. Cães latem ao longo do dia, chacais emitem seus uivos à noite, crianças são perceptíveis em algumas casas. Eles são tão importantes como os outros personagens.

 

Até que ponto os contos são apenas ficcionais ou refletem sua impressão de Israel?

Não se trata de uma metáfora de Israel, mas da condição humana. Acredito que as pessoas, em geral, sempre buscam algo movidas por um sentimento de perda. Novamente, não se sabe o que foi perdido - o que de fato existe é a sensação de perda. Não pretendi fazer um retrato sociológico de Israel, embora suas vilas tenham servido de inspiração. Sobre Israel, meu pensamento continua aberto: o conflito pode acabar bem ou mal, depende do que pensamos e do que faremos.

 

Os contos estão com datas e foram escritos entre 2006 e 2008. Quando começou a produzi-los, já planejava conectá-los?

Sim, muitos surgiram de sonhos, em que me via caminhando sozinho por uma vila em um deserto, às vezes observando alguém, às vezes sendo espionado, mas com um sentimento de solidão imperando. Assim, ao escrever, eu já sabia quantas histórias formariam o livro, que seriam circulares e que se passariam na mesma vila.

 

A literatura é pródiga em apresentar cidades ou vilas imaginárias que se tornam míticas, como Macondo de Gabriel García Márquez. Qual o fascínio que esses espaços exercem sobre as pessoas?

É uma metáfora da vida. Todos espaços pequenos, sejam vilarejos ou cidades, transformam-se em um microuniverso, um microcosmos. E tudo o que se passa no mundo real reflete lá. A experiência me ensinou outra verdade incondicional: quanto mais provincial um relato, mais universal ele será.

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