SENHORES E ESCRAVOS

Exposição revela como a cultura da Roma antiga aprendeu a lidar com a alteridade

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h11

O curador da exposição Roma - A Vida e os Imperadores mostra que, antes da dominação imperial, a possibilidade de um estrangeiro circular livremente, difundindo sua cultura e religião entre os romanos, era pequena. Adriano tinha sotaque de espanhol, mas chegou ao trono assim mesmo, lembram os historiadores. Deuses adorados em outras regiões foram importados e muitas das estátuas que os representam na mostra do Masp revelam a vocação multicultural do império. "Apesar de imperfeita, a integração social e cultural promovida pelos séculos de dominação romana era uma realidade", garante o professor Carlos Machado, da Unifesp, observando, no catálogo da mostra, como a palavra multiculturalismo mudou de sentido desde então. Para os romanos, ela significava, antes, preservar as diferenças, sejam elas étnicas ou religiosas.

Uma pequena cabeça de um dácio em mármore negro (pouco mais de 40 centímetros de altura), datada da época de Trajano (que derrotou os dácios, ancestrais de romenos e húngaros) destaca o barrete frígio, característico das populações orientais. Hoje, países europeus proíbem mulheres muçulmanas de usar trajes de sua cultura de origem. Isso faz toda a diferença quando se fala em multiculturalismo nos impérios modernos. Os gauleses, na época dos imperadores, podiam até mesmo entrar no Senado Romano, embora outras etnias fossem impedidas de sonhar com a cidadania local.

De qualquer modo, o ecumenismo era regra no Império. O culto de deuses africanos e egípcios não só foi tolerado como romanizado. Há na exposição camafeus com esses deuses representados e até um estranho busto da imperatriz Julia Domna com uma peruca (encaixada na peça de mármore) que certamente ela copiou das mulheres sírias. Entre as peças que o curador destaca como outro exemplo dessa aculturação está a da deusa Cibele, proveniente da Anatólia (atual Turquia), a Grande Mãe, que passou a ser cultuada em Roma no final do século 3.º a.C. "Era assim que eles lidavam com a alteridade, assimilando e adaptando os cultos", explica Guido Clemente.

Usados como amuletos contra a inveja e o mau-olhado e também para garantir fecundidade, os falos eretos do deus Príapo se espalham pela mostra em forma de pequenas estátuas e grandes peças (140 centímetros) esculpidas em mármore. Esse objetos de culto estavam em todas as casas, que muitas vezes identificavam a profissão de seu proprietário por meio de baixos-relevos, como o de um vendedor de travesseiros mostrando a mercadoria a clientes. É um exemplar raro, quase tanto como os afrescos da primeira metade do século 1.º a.C. que o Museu Arqueológico de Nápoles cedeu para a mostra.

A peça mais rara, no entanto, é uma groma, instrumento para medir terrenos e projetar ruas das cidades romanas. Segundo o curador, é a única groma que restou do mundo antigo no mundo, exibida ao lado de baixos-relevos que mostram edificações imperiais.

Entre as obras monumentais da exposição destaca-se a estátua do príncipe Giulio Claudio, com mais de 2 metros e duas toneladas de peso. Monumentos funerários - entre eles o de um menino, em mármore, repleto de alusões simbólicas (uma cobra devorando um ovo, significando a morte consumindo a vida) - chama a atenção do visitante, também contemplado com elmos e armas de gladiadores, máscaras teatrais, joias e objetos de uso cotidiano dos romanos.

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