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Senhora dos afetos

Espetáculo homenageia a psiquiatra Nise da Silveira e sua terapia baseada no alívio do sofrimento por meio da arte

O Estado de S.Paulo

05 de março de 2012 | 03h09

A Dra. Nise da Silveira, que a alegria e vitalidade da atriz e bailarina Mariana Terra, homenageiam em Senhora das Imagens, com dramaturgia e direção de Daniel Lobo, disse certa vez que "Jesus Cristo e os cães são os únicos seres que perdoam. Eu não perdoo". A frase altiva foi dita quando Nise se referiu a quem a delatou como comunista e a todos os responsáveis pelo seu período de 18 meses na prisão em 1936, logo depois do levante comunista de 1935, durante a ditadura Vargas, movimento rapidamente derrotado e violentamente reprimido. Seu colega de cadeia era Graciliano Ramos, alagoano como Nise e preso pela mesma razão. O escritor, que deixou testemunho do ocorrido em Memórias de Cárcere (filmado por Nelson Pereira dos Santos) descreve um encontro rápido com Nise: "além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos (...) O que senti foi surpresa, lamentei ver minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, dos seus queridos loucos."

Queridos loucos é a chave para entender Nise da Silveira (1905-1999) médica psiquiatra que, se não perdoava aquele regime e seus serviçais, estabeleceu a "terapia pelo afeto" no serviço psiquiátrico carioca e, por reflexo, em várias partes do Brasil. Uma heresia que lhe custou bastante na batalha contra os preconceitos e atrasos no sistema nacional de saúde pública, desde seu início profissional no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha, Rio de Janeiro, e que teve seu marco fundamental no Centro Psiquiátrico Nacional D. Pedro II no bairro de Engenho Novo. Ela sempre afrontou os tratamentos vigentes, sobretudo os eletrochoques que considerava, além de cruéis, a anulação de um humano. Para se livrarem da médica valente, os burocratas a deslocaram para o setor de recreação até então desdenhado como mero paliativo. Mas é ali que Nise da Silveira construiria um prestígio inabalável ao criar ateliês de pintura e modelagem. Os internos passam a dar vazão a seu imaginário, visões de mundo, percepção das cores, das coisas, de si mesmos. Começava a surgir o Museu de Imagens do Inconsciente hoje referência internacional registrada em documentário de Leon Hirszman (1987). Nise provou, e o filme mostra que Van Gogh não é um caso isolado. A arte pode acalmar sofrimentos psíquicos e se os especialistas analisarem com afeto o complexo mundo interior dos esquizofrênicos muito ainda poderá ser aperfeiçoado no modo de se lidar com seus males.

O espetáculo surpreendentemente bem humorado de Daniel Lobo é a louvação das teses, experiências e intuições da Dra. Nise que encontrariam respaldo em Carl Gustav Jung, o psicanalista que ela estudou longamente, com quem esteve em contato e, posteriormente, escreveu a biografia de forma didática (Jung, Vida e Obra, Editora Paz e Terra). A encenação usa recurso audiovisual para mostrar as pinturas dos pacientes, sobretudo as mandalas às quais Nise fazia conexões com a filosofia e a mística do Oriente. Falta, em parte, maiores explicações sobre os meandros da esquizofrenia e o pioneirismo de Nise em estimular as relações entre pacientes e animais (ela adorava os gatos). É complicado como narrativa teatral mas, quem sabe, valeria a pena tentar. Os depoimentos gravados não são esclarecedores, e quanto a isso há um grande ausente em Senhora das Imagens: o autor e diretor Fauzi Arap que voluntariamente trabalhou na área de teatro com pacientes de Nise, o que descreveu em Mare Nostrum (Editora Senac) livro com um subtítulo afinado com o projeto de Daniel Lobo, "sonhos, viagens e outros caminhos". Seria um dado a mais nessa cerimônia pela vida que Mariana Terra encarna com beleza e garra e um recado interessante da Dra. Nise: "Gente muito normal é chata."

Crítica: Jefferson Del Rio

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