Senhor maestro Karabtchevsky

RIO

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

A melodia entoada pela contralto, acompanhada em pianíssimo pela orquestra, mal se faz ouvir em meio à profusão de andaimes e operários que ainda ocupam os bastidores do palco do Teatro Municipal. Mas pelos vãos do caos do final da reforma, o sistema interno de televisão oferece uma cara para a música e revela o palco onde o maestro Isaac Karabtchevsky comanda os instantes finais do ensaio da Petrobras Sinfônica, na tarde de quarta. No programa, a Sinfonia n.º 2 de Mahler, que abriria na noite de quinta a temporada do grupo carioca.

Meia hora depois, o ensaio termina e Karabtchevsky é cercado pelos músicos. Em seguida, Carla Camurati, diretora do Municipal, e Silvio Viegas, regente da orquestra da casa, correm para perguntar sua opinião sobre a acústica.

A cena é representativa do status do maestro. Aos 75 anos, Karabtchevsky vive novo momento de redenção em terras brasileiras. Incensado pela crítica carioca, desde 2004 comanda a Petrobrás Sinfônica, que neste ano é responsável por uma das temporadas mais interessantes do país, com estreia de novas obras e primeiras audições brasileiras; desde a saída de John Neschling da Osesp, não abandona as listas de substitutos - acaba de reger a orquestra e volta no ano que vem para uma Nona de Mahler.

Mais: em entrevistas recentes, artistas como a pianista Maria João Pires e o violoncelista Antonio Meneses não poupam elogios à sua regência; Maria João é enfática: é um dos melhores regentes com quem trabalhou - e, nesse quesito, seu cartão de baile está bem cheio. Nada mal para um regente que, há dez anos, deixava o posto à frente do Municipal de São Paulo - e o país - debaixo de críticas pela situação complicada vivida pela orquestra.

Políticas. "Reformas como essa são sempre complicadas, em especial no que diz respeito à acústica", diz o maestro, enquanto caminha pelo labirinto de escadas em direção à saída dos fundos do Municipal. Pouco depois, caminhando pela Avenida Almirante Barroso, centro do Rio, continua. "Eu me lembro quando reformaram o Musikverein, em Viena, no início dos anos 90. Muitos reclamavam, mas os técnicos mostravam com os computadores que a acústica continuava a mesma. Comentários no calor do momento são complicados. É preciso esperar para sentir com certeza o que mudou."

A reforma da sala de concertos vienense terminou em 1992, quando Karabtchevsky ainda ocupava o posto de diretor da Tonkünstler Orchestra. Após quase 30 anos à frente da Sinfônica Brasileira, no Rio, partia para a Europa. Ficou lá de 88 a 1994; um ano mais tarde, assumiu o mítico Teatro La Fenice, em Veneza, onde esteve até 2001, período em que o teatro pegou fogo e precisou ser reconstruído. "Estávamos em Varsóvia fazendo um Don Carlo, de Verdi, e me lembro de assistir com os músicos da companhia o incêndio pela televisão", conta.

Nos anos 90, assumiu também a regência da Sinfônica Municipal de São Paulo. Nesse período, lembra com orgulho que montou o primeiro Wozzeck, de Alban Berg, no país. Mas, quando deixou o posto, em 2000, a façanha parecia distante de um presente em que a orquestra tocava pouco e o maestro era acusado de passar mais tempo fora do Brasil do que em São Paulo. "É fácil culpar um maestro. Mas é preciso lembrar da estrutura de um teatro como o de São Paulo, viciada, sem soluções a longo prazo, impossibilitadas pela noção equivocada de que as trocas artísticas devem acompanhar as trocas políticas, a cada quatro anos. Uma orquestra é um organismo complexo e não se molda uma sonoridade em quatro anos."

O maestro já vê resultados com a Petrobras Sinfônica - e considera a temporada 2010 prova disso. "Essa orquestra era uma terceira via, uma mistura de músicos da Sinfônica Brasileira e do Municipal. No entanto, foi crescendo, primeiro com o maestro Roberto Tibiriçá e comigo. Vamos estrear uma obra de André Mehmari, tocar a Sinfonia n.º 3 de Bernstein, fazer a estreia da Sinfonia nº 4 de Ives. Estamos trazendo algo novo para o cenário."

Nesse contexto está também o ciclo Mahler, que se encerra este ano, além da Sinfonia n.º 2, com a Sinfonia n.º 5. "Depois de Beethoven, apenas o conjunto sinfônico de Mahler permite à orquestra uma visão de unidade. Por isso fiz o ciclo em Viena, Veneza e na França, quando dirigi a Orquestra do Pays de Loire." A primeira vez que ouviu a música do compositor foi como estudante da Escola Livre de Música, "Rua Sergipe, 271". "Era uma gravação do maestro Bruno Walter da 2.ª sinfonia, E, como ele uma vez disse, também eu quis ser um arauto dessa música. Eu me identifiquei muito, por elementos ponderáveis e outros difíceis de definir, pois são produtos de uma relação afetiva."

Como regente, a música de Mahler o acompanha há 40 anos. Como mudou sua percepção dela? "Mudou como muda o ser humano. Com 20, 30 ou 40 anos, sente-se tudo de maneira diferente de quando se tem 60, 70 ou 75 anos." Mas o passar dos anos parece não incomodar o maestro, que fala sobre os inconvenientes do seu iPad - "a bateria acaba no meio do livro" - e da tentativa de baixar músicas na internet. E como se alterou a vida musical brasileira? "A grande novidade foi realmente a Osesp." Sonhos? Regada a suco de kiwi, a conversa sobre Mahler desemboca na música do início do século 20 e faz um breve retorno ao fim do romantismo antes que o maestro confesse, "Não desisti de fazer O Anel do Nibelungo."

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