Senhor do labirinto

Morre em Paris, aos 70 anos, o chileno exilado Raúl Ruiz, grande nome do cinema de invenção

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Quando jovem, aos 15 anos, Raúl Ruiz sonhava redigir para teatro e fixou, sem saber exatamente por que, a meta de escrever cem peças. No Chile, onde nasceu, ele direcionou o que seria sua vocação natural para o cinema e começou a fazer filmes. Com Patricio Guzman, Miguel Littín e Aldo Francia, Ruiz integrou o quarteto que reconstruiu o cinema chileno sob o signo da Unidade Popular de Salvador Allende. O golpe militar provocou a diáspora do grupo. Todos se dispersaram. Raúl foi para a França, onde virou um dos diretores mais prolíficos do mundo, de dar inveja a Roger Corman - que, por sinal, produziu sua homenagem ao filme B, O Território. Se não fez cem filmes, Ruiz chegou perto.

Na França, ele se adaptou tão bem que até trocou, sutilmente, de nome. Passou a assinar Raoul. Ontem, Ruiz morreu em Paris, aos 70 anos. Sofrendo de câncer do fígado, fez um transplante e parecia bem. Morreu de câncer no pulmão. Segundo a própria vontade, será enterrado no Chile. Passada a fase mais brutal da repressão de ditadura de Augusto Pinochet, Ruiz voltou diversas vezes ao seu país de origem, mas não mais para morar. O cinema exigente e autoral do cineasta exigia recursos que o país não tinha condições de lhe proporcionar, ainda mais no seu ritmo. Mas descansar para sempre, ele dizia, teria de ser em casa. Seu longa - de quase cinco horas - Os Mistérios de Lisboa ganhou o prêmio da crítica na Mostra de São Paulo do ano passado. Até os que mais amaram o filme de Ruiz tiveram dificuldade para absorver (ou explicar) a pirueta final. Para evitar controvérsia, ela foi ignorada pela maioria dos resenhistas.

O grande filme chileno de Ruiz foi Três Tristes Tigres, em 1968. Tente dizer o título em voz alta, rapidamente, sem se atrapalhar. A sonoridade das palavras é um elemento importante da estética do autor. O cinema de Ruiz incorpora a linguagem verbal de forma a criar novas situações não contidas nas imagens. A trilha quase sempre unifica imagens desligadas uma das outras, iluminando e dando sentido a cenas e personagens. Isso é particularmente sensível em L"Hypothèse du Tableau Volé, um de seus maiores filmes da fase europeia, de 1978. Nele, Ruiz reflete sobre as relações entre palavras e imagens e o significado esotérico atribuído a quadros famosos. Esse esoterismo, que também impregna filmes, permite uma ponte entre a obra de Ruiz e a de outro grande artista que também vive no exílio - Alejandro Jodorowsky (mas o segundo é ainda mais "cifrado").

Numa filmografia tão extensa, é difícil citar momentos destacados, não porque eles não existam, mas, pelo contrário, porque até os que seriam os filmes menos logrados do autor dialogam internamente, aumentando a complexidade da obra como um todo. Mas pode-se arriscar - Diálogo de Exilados, de 1974, logo após o golpe militar, tem tudo a ver com a experiência que o próprio Ruiz estava vivendo; As Quatro Coroas do Marinheiro, de 1982, quase sempre considerado sua obra-prima - se fosse preciso escolher um título, apenas -, usa o "matelot" que viaja pelo mundo para metaforizar a morte e o exílio, temas recorrentes em muitos filmes. Les Quatre Couronnes du Matelot absorve influências (e histórias) de Joseph Conrad, Robert Louis Stevenson, Selma Lagerlof, Jonathan Swift e Hans Christian Anderson.

Surrealismo? Homem de cultura, Ruiz conseguiu o que Luchino Visconti e Joseph Losey perseguiram em vão - O Tempo Redescoberto, de 1999, fornece uma síntese respeitável do monumental roman-fleuve de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido. E o cineasta conseguiu reunir um elenco de sonho - Catherine Deneuve, Emmanuelle Béart, John Malkovich, Pascal Gregory, Vincent Perez, Chiara Mastroianni, Arielle Dombasle. Outros grandes filmes - Regime sem Pão, de 1986; Olho Que Mente, de 1992; Três Vidas e Uma Só Morte, de 1995, com Marcello Mastroianni - foi seu penúltimo trabalho; e, claro, Os Mistérios de Lisboa, adaptado da obra de Camilo Castelo Branco, são outras demonstrações de uma das mentes mais criativas do cinema.

É uma obra que cria espelhos, labirintos e sombras. Ruiz, senhor do labirinto? Seu cinema possui uma dimensão fantástica, que o próprio autor creditava ao imaginário latino-americano. Muitos críticos o ligavam, por isso, ao surrealismo. Seria ele um surrealista? Ruiz dizia que não. Considerava o surrealismo superado, como estética, mas gostava de adotar, como artista, "os seus procedimentos".

O agravamento de seu estado de saúde deixou-o inativo depois de Os Mistérios de Lisboa, situação inédita em sua vida (e carreira). Os Mistérios estreou em Nova York, com raro sucesso de crítica e público - para uma produção estrangeira. Era um dos mistérios de Ruiz. No circuito de arte, o chileno exilado foi, simplesmente, um dos maiores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.