Marcos de Paulo/AE
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Senhor do crime

Autor dos livros que inspiraram os filmes 'Lúcio Flávio' e 'Pixote', o maranhense José Louzeiro, aos 81 anos, tem sua obra republicada, começando por 'Aracelli, Meu Amor'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2013 | 02h09

Há quase 40 anos uma menina de 9 anos foi encontrada morta nos fundos do Hospital Infantil de Vitória, Espírito Santo. Tinha marcas de abuso sexual e um ácido corrosivo havia sido jogado sobre seu corpo para dificultar sua identificação. O caso de Aracelli Cabrera Sanches Crespo, assassinada em 18 de maio de 1973, comoveu o jornalista maranhense José Louzeiro, repórter de polícia por mais de duas décadas e autor do livro que denunciou duas das famílias mais poderosas do Espírito Santo por envolvimento no crime. Ele conta a história no livro Aracelli, Meu Amor, primeiro dos títulos de Louzeiro que a Editora Prumo coloca no mercado, anunciando a republicação de parte de sua obra.

Aos 81 anos, o escritor comemora também o lançamento de seu mais recente livro, Lições de Amor (Universo dos Livros/UFMA), homenagem à professora Maria Freitas, que o incentivou a ler na infância. Sem a mestra de Geografia do Colégio São Luiz, talvez Louzeiro não viesse a escrever histórias de denúncia como as de Pixote e Lúcio Flávio, ambas filmadas pelo cineasta Hector Babenco - em 1977 e 1981, respectivamente. Louzeiro estreou como escritor aos 26 anos com um livro de contos, Depois da Luta. Alguns dos crimes mais escabrosos cometidos no Brasil seriam investigados pelo repórter e igualmente transformados em livro. Ainda este ano a Prumo lança Os Amores da Pantera, inspirado no assassinato da socialite mineira Ângela Diniz por seu amante Doca Street, em 1975.

No próximo ano, a editora publica mais três polêmicos livros de Louzeiro, que chegou a ser ameaçado de morte várias vezes por defender marginalizados e acusar poderosos. Maior nome brasileiro do romance-reportagem, gênero criado em 1966 pelo norte-americano Truman Capote (A Sangue Frio) e reinventado por Louzeiro, o autor revê (em Anjo da Fidelidade) a história de Gregório Fortunato (1900-1962), o guarda-costas de Getúlio Vargas acusado de encomendar o atentado contra Carlos Lacerda na Rua Tonelero, em 1954, livrando-o da pecha de corrupto e assassino. Outro livro a ser lançado (em 2014) é Em Carne Viva, sobre Stuart Angel (1944-1971), integrante da luta armada e filho da estilista Zuzu Angel, desaparecido durante a ditadura. O terceiro título do próximo ano é O Estrangulador da Lapa, sobre um maníaco sexual obcecado por mulheres bonitas.

Autor de 51 livros e 10 roteiros para o cinema, José Louzeiro sempre esteve na linha de frente da reportagem policial, em confronto direto com o poder constituído por suas denúncias de corrupção e abusos contra presos - das quais a mais vigorosa é Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. O livro conta a história do assaltante de bancos Lúcio Flávio Vilar Lyrio (1944-1975) que, durante o regime militar, época da criação do grupo de extermínio Esquadrão da Morte, é preso, torturado e depois morto a facadas por um companheiro de cela, em 1975. Entre os filmes baseados em livros seus, é o preferido de Louzeiro. Ele o reescreveu depois da adaptação, reincorporando três capítulos suprimidos a fim de passar pela censura militar nos anos 1970. "Lúcio Flávio era muito pobre, veio ao mundo para indignar", diz o escritor, definindo o filho do ex-cabo eleitoral de Juscelino Kubitschek como "um grande desenhista, uma pessoa séria e digna".

Lúcio embarcou na marginalidade durante a ditadura, após ver seu pai humilhado por policiais do Dops numa festa de casamento (eles queriam saber o paradeiro de JK, teriam enfiado seu rosto no bolo da festa e espancado sua mãe). Louzeiro, igualmente de uma família humilde, poderia ter sido um marginal como seu biografado, mas teve melhor sorte. "Meu pai, que era pedreiro e depois virou pastor presbiteriano, fez um acordo com os diretores da escola para consertar o prédio na época das chuvas, a fim de que eu pudesse estudar", conta, lembrando com nostalgia de sua infância e da professora Maria Freitas, que lhe colocou o primeiro livro nas mãos. Era uma biografia de Abraham Lincoln (1809-1865), o 16.º presidente norte-americano, que libertou os escravos dos Estados confederados, abrindo caminho para a abolição da escravatura.

Para o pai, Louzeiro lia trechos da Bíblia à noite, como o personagem de James Dean no clássico filme Vidas Amargas, obrigado a fazer o mesmo. Sua família morava num subúrbio chamado Gamboa do Mato. "O livro que acabei de lançar, Lições de Amor, conta a minha história e é um exercício memorialista, pois estive lá e não encontrei mais nada em pé." Nem mesmo o quarto que pediu para o pai pedreiro fazer em troca da promessa de estudar. Aos 12 anos, o moleque encrenqueiro, que brigava na rua, transformou-se por completo - talvez por interveniência das orações de Mundiquinha, sua mãe Raimunda, católica fervorosa que o pai pastor não conseguiu converter.

Essa experiência de outsider mirim seria muito importante na hora de reconstituir a vida de um menino de rua que iria cruzar a fronteira do Brasil em forma de filme, Pixote. O livro em que ele se baseia, Infância dos Mortos (fora de catálogo), foi escrito na esteira do sucesso de Lúcio Flávio. Conta a história de menores abandonados que se envolvem com o crime, passam por instituições de recuperação e saem delas piores do que entraram. Na época, fim dos anos 1970, a classe média ainda não era vítima de arrastões nem assaltada por meninos de rua.

O crime organizado é outra coisa, segundo Louzeiro. "Ele sempre existiu e a polícia esteve envolvida desde os primórdios da existência dos primeiros comandos." Nos anos 1950, quando Louzeiro começou a trabalhar como repórter policial, o banditismo era amador. Com o golpe de 1964, delinquentes ganharam armas para matar comunistas e aprenderam um bocado sobre conceitos de organização e resistência com militantes de esquerda presos. Para não serem torturados, presos comuns criaram grupos que exerciam um poder paralelo ao da polícia, organizados por nomes como Comando Vermelho e PCC, organizações ligadas ao tráfico de drogas e armas.

Após ter vários de seus livros adaptados para o cinema, Louzeiro revela sua vontade de ver Aracelli levado à tela, até mesmo por ser essa uma história em aberto. "Veja, a mãe dela, Lola Sanchez, usou a filha como 'mula' para entregar drogas, desapareceu em Vitória em 1981, hoje mora na Bolívia e os criminosos nunca sofreram punição." De fato, há 20 anos, todos os suspeitos foram absolvidos.

E, para quem associa Louzeiro exclusivamente a histórias de bandidos e desajustados, ele lembra que foi pioneiro ao tratar de uma relação lésbica que desafiou os padrões morais há 30 anos, ao assinar o roteiro de Amor Maldito (1983), filme dirigido por Adélia Sampaio sobre uma mulher injustamente acusada de matar a ex-amante - que, grávida, cometeu suicídio em seu apartamento, após ser abandonada pelo namorado.

Distante da agitação do mundo literário, Louzeiro diz que mantém contato com novos escritores, mas não vê entre os mais jovens disposição para enfrentar temas sociais abrangentes. "Eles não parecem interessados na história dos outros", comenta. "São autorreferentes".

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